Padre Silvio Andrei mira Câmara com discurso municipalista e foco na saúde

Padre Silvio Andrei garante que o contato direto com as dificuldades da população foi determinante para sua decisão de voltar à disputa.
Padre Silvio Andrei
Padre Silvio Andrei disputa pela segunda vez uma vaga na Câmara dos Deputados (Miriã Fabbri/Jornal Giro)

Candidato a deputado federal, Padre Silvio Andrei (Avante) aposta na experiência de quase três décadas como sacerdote para construir sua candidatura à Câmara dos Deputados. Em entrevista ao Jornal Giro, ele apresentou um discurso municipalista e colocou a saúde entre as principais prioridades de um eventual mandato.

Andrei já disputou uma eleição para deputado federal em 2018, quando recebeu mais de 47 mil votos em 474 dos 645 municípios paulistas. Segundo ele, a experiência adquirida desde então e o contato direto com as dificuldades da população foram determinantes para sua decisão de voltar à disputa.

A saúde é uma das principais bandeiras apresentadas pelo candidato, especialmente a redução das filas para consultas, exames e cirurgias. Ele relatou ter acompanhado casos de pacientes que não conseguiram atendimento a tempo e afirmou que pretende utilizar o mandato para cobrar soluções e buscar recursos para os municípios.

“Quero dedicar uma parte importante do mandato à área da saúde, auxiliando os municípios a reduzir as filas para exames, consultas e cirurgias”, afirmou.

Outro eixo da candidatura é a atuação municipalista. Andrei afirma que pretende manter diálogo com prefeitos independentemente de partido e trabalhar pelas necessidades de cada cidade. Na região Oeste, citou Osasco, Barueri, Jandira, Itapevi, Santana de Parnaíba e Pirapora do Bom Jesus como municípios com os quais mantém relação.

Entre as pautas regionais, o candidato pretende defender o fortalecimento do turismo religioso, especialmente em Pirapora do Bom Jesus, além de melhorias na mobilidade e discussão sobre os pedágios. A recuperação do Rio Tietê também está entre as propostas, com defesa de investimentos em saneamento, tratamento de esgoto e recuperação ambiental.

No campo político, Andrei defende a família, a vida e a liberdade religiosa. Também se posiciona favoravelmente à responsabilização de jovens de 16 anos que cometam crimes graves e contra banheiros unissex em escolas públicas. Ao mesmo tempo, afirma ser contrário à polarização política e defende o diálogo entre diferentes correntes ideológicas.

A candidatura também levou ao afastamento temporário do sacerdote das atividades públicas do ministério durante o período eleitoral. Andrei afirma concordar com a decisão da Igreja e ressalta que não deixou de ser padre.

Ao justificar sua candidatura, o religioso afirma que pretende levar para Brasília a experiência de décadas ouvindo as necessidades da população. “Não me considero um salvador da pátria. Quero contribuir para que o Congresso Nacional esteja mais próximo da população”, finalizou.

Confira a entrevista completa do Padre Silvio Andrei

Jornal Giro: Antes de falarmos da candidatura, como sua história de vida e sua trajetória como sacerdote influenciaram sua decisão de entrar na política?

Padre Silvio Andrei: Minha história de vida sempre foi marcada por lutas. Sou o quarto filho de uma família de origem humilde e minha própria chegada ao mundo foi cercada de dificuldades. Durante a gravidez, houve a suspeita de que minha mãe tivesse um cisto e não uma gestação. Por falta de acesso à medicina, chegaram a sugerir uma intervenção, mas ela decidiu esperar. Graças à sua insistência, nasci em 1970. Também enfrentei dificuldades na infância. Nasci com a língua presa, tinha problemas para falar e, por vergonha, me tornei uma criança muito quieta. Só passei por uma cirurgia quando tinha quase nove anos. Essas experiências me ensinaram que a vida é uma luta e que milhões de brasileiros enfrentam diariamente dificuldades para viver com dignidade. Entrei no seminário em 1988 e tenho quase 30 anos de ministério sacerdotal. Ao longo desse período, ouvi histórias de sofrimento, sonhos, perdas e superações. Minha candidatura nasce dessa experiência de vida e também de tudo aquilo que vivi como sacerdote. Decidi me colocar como uma opção para os eleitores de São Paulo nas eleições de 2026.

Jornal Giro: O senhor já foi candidato em 2018 e recebeu mais de 47 mil votos. O que mudou de lá para cá e por que acredita que este é o momento certo para voltar à disputa?

Padre Silvio Andrei: Em 2018, fiz votos em 474 dos 645 municípios do estado de São Paulo. Foi uma experiência muito importante e trouxe um grande aprendizado. Naquele momento, eu tinha muito idealismo, mas ainda não conhecia profundamente o que significava enfrentar uma campanha eleitoral e me expor em uma disputa política. Hoje tenho mais experiência e maturidade. Mas o que mais mudou foi a minha indignação. Vejo muitos políticos distantes da população e das necessidades reais das famílias. Alguns conhecem os problemas apenas pela teoria, mas não vivenciam a dor de quem precisa de atendimento médico, emprego ou condições dignas de vida. Ao longo dos anos, continuei ouvindo as pessoas e amadureci minha visão sobre a política. Quero transformar essa experiência em propostas e projetos de lei. Um deputado federal precisa pensar no Brasil, e não apenas em uma cidade ou região. Minha indignação aumentou, mas meu idealismo também. Quero levar minha experiência de vida para o Congresso Nacional e trabalhar para que as políticas públicas cheguem de fato à população.

Jornal Giro: Sua candidatura levou ao afastamento das atividades públicas do Ministério Sacerdotal durante o período eleitoral. Como o senhor recebeu essa decisão?

Padre Silvio Andrei: Concordo com meu bispo, Dom Arnaldo Carvalheiro Neto. O afastamento está correto e faz parte do processo eleitoral. Não seria correto, por exemplo, celebrar uma missa para um grande público e, de alguma maneira, utilizar aquele momento para solicitar votos. Não posso utilizar meu ministério em benefício da minha candidatura. É importante esclarecer que eu não deixei de ser padre. Continuo sendo padre. Apenas não estou, neste momento, à frente de uma paróquia ou exercendo uma função eclesiástica pública. Depois das eleições, pretendo retomar normalmente o exercício do meu ministério, dentro daquilo que for definido em diálogo com a Igreja.

Jornal Giro: Caso seja eleito deputado federal, como pretende conciliar a atividade parlamentar com o sacerdócio?

Padre Silvio Andrei: Isso dependerá de como essa situação será organizada e acordada com a Igreja. Existem diferentes possibilidades. Não seria possível, por exemplo, exercer simultaneamente o mandato de deputado e ser responsável por uma paróquia. Existem padres que permanecem licenciados durante o mandato e outros que continuam celebrando missas sem estar à frente de uma comunidade específica. Portanto, será uma questão de logística e, principalmente, de entendimento com a Igreja. Quero respeitar as normas e as decisões da instituição.

Jornal Giro: Na sua avaliação, qual é hoje a principal demanda da população mais carente?

Padre Silvio Andrei: Sem dúvida, a saúde. Principalmente as filas para exames, consultas e cirurgias. Durante minha atuação em cidades como Pirapora do Bom Jesus e Santana de Parnaíba, ouvi muitos relatos de pessoas que esperavam meses por um exame ou procedimento. Uma situação me marcou profundamente. Uma família me procurou porque o pai precisava de uma cirurgia de urgência. Procurei autoridades e tentei ajudar, mas o procedimento não foi realizado a tempo. Depois, a família entrou em contato dizendo que eu não precisava mais intervir. Pensei que a cirurgia tivesse sido realizada, mas descobri que aquele homem havia morrido sem conseguir passar pelo procedimento. Aquilo me marcou muito. Foi quando pensei que, como deputado, poderia ter mais instrumentos para cobrar e buscar soluções. Quero dedicar uma parte importante do mandato à saúde, auxiliando os municípios a reduzir as filas para exames, consultas e cirurgias.

Jornal Giro: Além da saúde, quais outras bandeiras o senhor pretende defender na Câmara dos Deputados?

Padre Silvio Andrei: Costumo resumir minhas principais bandeiras em três grandes áreas: defesa da família, defesa da vida e liberdade religiosa. Defender a família significa defender as condições para que ela possa existir e viver com dignidade. Isso envolve trabalho, renda, políticas públicas, combate à violência doméstica e condições para que os pais possam sustentar e cuidar de seus filhos. A defesa da vida também é ampla. Sou contra o aborto, mas acredito que não basta defender o nascimento. É preciso pensar nas condições que a mãe e a família terão para criar uma criança. Por isso, precisamos fortalecer políticas públicas para a infância, adolescência e juventude. Também defendo a liberdade religiosa. O Estado é laico, mas isso não significa que as pessoas não possam exercer e expressar sua fé. Independentemente da religião, todos devem ter esse direito garantido e respeitado.

Jornal Giro: O senhor também se apresenta como defensor da causa animal. Como surgiu esse envolvimento?

Padre Silvio Andrei: Sempre tive uma relação muito próxima com os animais. Tenho um cachorro, o Thor, que vive comigo há quase nove anos, e também participo de ações de proteção animal. Defendo tolerância zero contra maus-tratos e abandono. Acredito que todas as formas de vida devem ser respeitadas. Também me inspiro muito em São Francisco de Assis e na sua relação com os animais e com a natureza. Quando falo em defesa da vida, não penso apenas na vida humana. Incluo também os animais, a natureza e o meio ambiente. Precisamos ter uma relação de respeito com toda a criação.

Jornal Giro: Quais políticas públicas o senhor defende para combater a violência contra a mulher e proteger pessoas em situação de vulnerabilidade?

Padre Silvio Andrei: Meu olhar está voltado para o combate à violência contra a mulher, mas também contra crianças, idosos e todas as pessoas em situação de vulnerabilidade. A violência tem se tornado cada vez mais cruel, e é inaceitável que uma mulher seja agredida ou morta. Nada justifica a violência. Quero defender políticas públicas voltadas à proteção das mulheres, das crianças, dos idosos, das minorias e das pessoas que sofrem perseguição ou exclusão. Toda pessoa precisa ser respeitada como ser humano, independentemente de religião, sexo ou orientação sexual. Também acredito ser necessário fortalecer a aplicação das leis e garantir que as medidas de proteção funcionem na prática. Não basta existir uma lei se ela não conseguir proteger efetivamente quem está sofrendo violência.

Jornal Giro: Como o senhor se posiciona sobre a redução da maioridade penal?

Padre Silvio Andrei: Primeiro, acredito que o sistema prisional brasileiro precisa ser reorganizado porque, da forma como funciona hoje, muitas vezes não recupera ninguém. O sistema precisa oferecer trabalho, disciplina e condições reais de recuperação. O preso não pode simplesmente permanecer inativo. Precisa trabalhar, produzir e se preparar para retornar à sociedade. Sou favorável a que um jovem de 16 anos que cometa crimes graves, como homicídio ou atos de extrema violência, responda pelo que fez. Defendo que seja responsabilizado e retirado temporariamente do convívio social até que esteja recuperado e em condições de retornar à sociedade.

Jornal Giro: Como o senhor vê a forte polarização entre esquerda e direita na política brasileira?

Padre Silvio Andrei: A polarização tem feito muito mal ao país. No passado, as pessoas tinham opiniões políticas diferentes, mas conseguiam conviver, manter amizades e relações familiares. Hoje, muitas vezes, a política se aproxima do fanatismo. A disputa ideológica tem prejudicado relações e, em alguns casos, provocado violência. Precisamos abrir mais espaço para o diálogo e para a discussão dos problemas reais da população. Direita e esquerda representam pensamentos diferentes, mas precisam conviver e dialogar. A beleza da democracia está justamente na diversidade de opiniões. Também acredito que a religião não pode ser transformada em um campo de guerra. A dimensão religiosa deve contribuir para promover diálogo, respeito e convivência. Podemos discordar sem transformar o outro em inimigo.

Jornal Giro: Caso seja eleito, o senhor participaria de uma frente parlamentar formada por deputados com vínculo com a região Oeste, independentemente das diferenças partidárias?

Padre Silvio Andrei: Sim, com muito prazer. Sei da importância de unir forças em torno de causas comuns. Tenho uma relação muito forte com a região Oeste. Já celebrei missas e mantive atividades em Osasco, Barueri, Jandira, Itapevi, Santana de Parnaíba e Pirapora do Bom Jesus. Todo esforço feito em benefício da região terá o meu apoio. A política precisa ter capacidade de superar diferenças partidárias quando existe uma causa maior a ser defendida. Se tivermos deputados de diferentes partidos trabalhando juntos por uma demanda regional, acredito que teremos muito mais força para buscar resultados em Brasília.

Jornal Giro: Qual é a sua posição sobre banheiros unissex em escolas públicas?

Padre Silvio Andrei: Sou contra banheiros unissex. Acredito que homens e mulheres devem ter banheiros separados, principalmente por uma questão de privacidade. Ao mesmo tempo, reconheço que existem pessoas trans e que esse é um debate que precisa ser tratado com seriedade e respeito. Para ser honesto, não tive oportunidade de conversar amplamente com a população trans sobre esse tema. Por isso, antes de defender uma solução definitiva, acredito ser necessário ouvir. Se fosse deputado, buscaria dialogar com pessoas trans e diferentes representantes desse grupo para compreender suas necessidades e discutir alternativas que garantam respeito e segurança. Minha postura é a do diálogo. Conversar nunca é perda de tempo.

Jornal Giro: Quais demandas da região Oeste o senhor pretende levar para Brasília?

Padre Silvio Andrei: Tenho uma ligação muito forte com a região e uma das bandeiras que considero importantes é o fortalecimento do turismo religioso. Pirapora do Bom Jesus é um grande exemplo. A cidade recebe milhares de visitantes durante a Semana Santa e nas celebrações do Bom Jesus. O turismo religioso não envolve apenas fé e devoção. Ele movimenta a economia, gera empregos, renda e oportunidades para hotéis, restaurantes, comércio e outros setores. Quero trabalhar para fortalecer e consolidar essa atividade. Outra preocupação é a mobilidade. Precisamos melhorar os acessos entre as cidades da região e a capital, além das ligações entre o interior e São Paulo. Também considero necessário discutir a questão dos pedágios, que pesam no orçamento de muitos moradores da região.

Jornal Giro: A região enfrenta problemas históricos relacionados à poluição do Rio Tietê. O senhor pretende atuar nessa questão?

Padre Silvio Andrei: Sem dúvida. Essa é uma questão ambiental, mas também de saúde pública, qualidade de vida e desenvolvimento econômico. O Rio Tietê precisa ser recuperado. Quando trabalhei em Pirapora do Bom Jesus, participei de movimentos e campanhas pela recuperação do rio. O problema não começa em Pirapora, Santana de Parnaíba ou Barueri. Essas cidades recebem as consequências da poluição acumulada ao longo de todo o percurso. É necessário investir em saneamento, tratamento de esgoto, fiscalização e recuperação ambiental. Um Rio Tietê recuperado poderia representar muito mais para a região: qualidade de vida, turismo, lazer e até novas possibilidades de transporte.

Jornal Giro: Como pretende se relacionar com os prefeitos da região caso seja eleito?

Padre Silvio Andrei: Quero ser um deputado municipalista e estabelecer relações de parceria com os prefeitos, independentemente dos partidos políticos. Não quero ajudar uma cidade apenas pelo número de eleitores. Quero olhar para as necessidades de cada município. Pretendo manter diálogo com os prefeitos da região Oeste, independentemente de alianças políticas ou de eventuais divergências. O objetivo deve ser buscar recursos, investimentos e soluções para melhorar a vida das pessoas. O deputado precisa estar à disposição dos municípios e não apenas daqueles que apoiaram sua candidatura.

Jornal Giro: Para encerrar, qual é a principal razão que o senhor apresenta ao eleitor para solicitar um voto de confiança? E qual compromisso pretende assumir para os quatro anos de mandato?

Padre Silvio Andrei: Tenho 56 anos e, em janeiro, completo 30 anos de sacerdócio. Como padre, carrego comigo uma grande sensibilidade social e uma experiência de décadas ouvindo as necessidades das pessoas. A fé sempre me ensinou a olhar para quem tem fome e para quem precisa de saúde, cuidado, atenção e dignidade. Também acredito que a política, quando exercida corretamente, é um instrumento para buscar o bem comum. É essa visão que quero levar para a Câmara dos Deputados. Não me considero um salvador da pátria. Quero contribuir para que o Congresso Nacional estar mais próximo da população. Quero ser um deputado municipalista, atento tanto às pequenas cidades quanto aos grandes centros urbanos. Quero ouvir os municípios e trabalhar para que suas necessidades cheguem a Brasília. Também quero ser um deputado presente no dia a dia das pessoas, e não apenas durante as eleições. Quero que o cidadão saiba quem é seu representante e tenha acesso a ele. Quero representar os católicos, mas também todas as pessoas que precisam de atenção, cuidado e políticas públicas, independentemente de sua religião.

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