O debate sobre o possível fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho sem diminuição salarial deve ampliar a pressão sobre empresas que dependem de operação contínua, segundo avaliação do professor de Administração da Universidade Presbiteriana Mackenzie, José Geraldo de Araújo Guimarães.
Para o especialista, setores como supermercados, comércio, bares, restaurantes, hotéis, saúde, transporte, segurança e serviços essenciais tendem a sentir os impactos de forma mais intensa caso a proposta avance no Congresso Nacional.
“Sim, preocupa o setor empresarial, especialmente os segmentos que dependem de presença física contínua e funcionamento em vários dias da semana”, afirma.
Segundo Guimarães, a principal consequência imediata seria o aumento dos custos operacionais, já que muitas empresas precisariam contratar novos funcionários ou reorganizar escalas para manter o funcionamento.
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“Parte desses custos poderá ser repassada aos preços, dependendo da concorrência, da margem de lucro e da capacidade de cada empresa absorver esse impacto”, diz.
O professor ressalta, no entanto, que a discussão não deve ficar restrita apenas ao impacto financeiro. Para ele, jornadas mais flexíveis podem trazer ganhos de produtividade e reduzir problemas recorrentes nas empresas.
“A mudança também pode trazer efeitos positivos, como redução do absenteísmo, menor rotatividade, melhoria do clima organizacional e aumento da produtividade”, afirma.
Na avaliação do especialista, trabalhadores com mais tempo de descanso e equilíbrio entre vida profissional e pessoal tendem a apresentar maior engajamento e menor desgaste físico e mental.
Fim da escala 6×1: pequenas empresas devem enfrentar mais dificuldades
José Geraldo de Araújo Guimarães avalia que pequenas e médias empresas terão mais dificuldade de adaptação, principalmente pela limitação financeira e pelo quadro reduzido de funcionários.
“Para uma pequena empresa, esse mesmo ajuste pode representar um impacto proporcionalmente muito maior”, afirma.
Ele também alerta para o risco de crescimento da informalidade caso uma eventual mudança ocorra sem planejamento e políticas de apoio ao setor produtivo.
Tecnologia e inteligência artificial podem ganhar espaço
Outro efeito apontado pelo professor é a tendência de aceleração dos investimentos em automação, sistemas de gestão e inteligência artificial.
“A redução da jornada pode acelerar investimentos em automação, tecnologia e inteligência artificial, especialmente em atividades repetitivas, operacionais ou de baixa complexidade”, diz.
Segundo ele, muitas empresas já enfrentam dificuldades para contratar e manter trabalhadores em funções consideradas mais desgastantes. Nesse cenário, ferramentas automatizadas devem ganhar espaço como alternativa para manter produtividade e reduzir custos operacionais.
Fim da escala 6×1: experiências internacionais entram na discussão
O especialista cita experiências internacionais que registraram resultados positivos após a adoção de jornadas reduzidas.
“Em países como Islândia e Reino Unido, testes com jornadas reduzidas indicaram manutenção ou até melhoria da produtividade, além de ganhos em bem-estar, redução de estresse e melhoria no equilíbrio entre vida profissional e pessoal”, afirma.
Apesar disso, Guimarães destaca que a realidade brasileira exige cautela por causa da informalidade, das desigualdades regionais e da forte presença de pequenas empresas em setores intensivos em mão de obra presencial.
“O Brasil pode seguir esse caminho, mas não de forma automática”, pontua.
Debate deve avançar no Congresso
Na avaliação do professor da Mackenzie, a proposta tem possibilidade real de avançar no Congresso, impulsionada pelo apoio popular e pela repercussão social do tema.
“A proposta tem chances reais de avançar, principalmente porque conta com forte apoio popular e ocorre em um contexto político sensível”, afirma.
Para ele, o centro da discussão deve ficar concentrado nas regras de transição, nos prazos de adaptação e em possíveis exceções para determinados setores da economia.
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