El Niño coloca cidades da Região Oeste de SP em estado de atenção

Cotia cria comitê climático, Sabesp promete segurança hídrica e governo estadual amplia plano de combate a queimadas diante do El Niño
El Niño coloca cidades da Região Oeste de SP em estado de atenção
Segundo, na região sudeste, o cenário exige atenção para ondas de calor (Divulgação/Governo do Estado de SP)

A previsão de formação do fenômeno El Niño entre o fim de agosto e o início de setembro acende um alerta para os municípios da Região Oeste. A expectativa é de mudanças no comportamento do clima, com possibilidade de ondas de calor mais frequentes, chuvas irregulares e aumento do risco de queimadas.

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, que altera a circulação atmosférica e influencia o regime de chuvas, os ventos e as temperaturas em diferentes regiões do planeta, incluindo o Sudeste brasileiro.

Segundo o Climatempo, na região sudeste, o cenário exige atenção para ondas de calor, atraso ou irregularidade no retorno das chuvas e maior demanda por energia em períodos de temperatura elevada.

Além disso, conforme o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), é esperado para o estado paulista precipitações mal distribuídas, variando entre estiagens e volumes concentrados dependendo da área. Também pode haver períodos quentes mais frequentes e prolongados.

Diante desse cenário, as gestões estaduais e municipais têm adotado ações preventivas. O governo do Estado de SP, por exemplo, reforçou as medidas para enfrentar o período mais crítico de queimadas. A Prefeitura de Cotia também montou um comitê para monitorar mudanças climáticas.

Medidas com águas

À reportagem do Giro S/A, a Sabesp informou que projeções operacionais para 2026 confirmam a segurança do abastecimento, mesmo em diferentes cenários hidrológicos do El Niño. A empresa vem acompanhando continuamente a evolução dos níveis dos reservatórios, das vazões e das condições climáticas, ajustando a operação conforme as regras técnicas e regulatórias.

“A segurança hídrica do sistema vem sendo reforçada por um conjunto de obras estruturantes, incluindo a transferência de água do Itapanhaú, com acréscimo de até 2.500 litros por segundo, e a transposição Billings–Taiaçupeba, que ampliará a captação ao transferir 4 mil litros por segundo do Rio Pequeno para a represa de Taiaçupeba. Ao todo, a Sabesp prevê investir R$ 7,8 bilhões em ações de segurança e resiliência hídrica até 2030”, afirma o órgão.

No cenário mais amplo, durante este período de El Niño, a Companhia também tem trabalhado em ações de combate a perdas, manutenção preventiva e modernização da rede, já que grande parte das tubulações do Estado de São Paulo foi instalada há mais de 40 anos.

No último ano, a Sabesp investiu R$ 1,6 bilhão nessa frente, ampliando a confiabilidade do abastecimento. Por conta do trabalho, a empresa foi reconhecida pelo estudo Perdas de Água 2026, do Instituto Trata Brasil.

O consumo consciente inclui banhos mais rápidos neste período de El Niño (Divulgação/Sabesp)

O levantamento que apontou a cidade de São Paulo como a capital com o menor índice de perdas de água entre as cinco mais populosas do país, com 24,4%, percentual já inferior à meta estabelecida pelo Marco Legal do Saneamento para 2033. Além da capital, a Sabesp reúne cinco municípios entre os 20 mais bem colocados no ranking nacional dos 100 municípios mais populosos do país — São Bernardo do Campo, Santos, Suzano, Taubaté e Franca — refletindo os resultados dos investimentos em eficiência operacional e combate ao desperdício.

Outra medida adotada pela Sabesp, neste período de seca e para o El Niño, é a redução da pressão da água durante a madrugada, período de menor consumo, conforme determinação do órgão regulador. Desde o início da operação, em agosto de 2025, a companhia estima ter economizado cerca de 172 bilhões de litros de água, volume suficiente para abastecer aproximadamente 30 milhões de pessoas por um mês.

Segundo a empresa, a iniciativa tem como objetivo reduzir as perdas no sistema, preservar os mananciais e minimizar a ocorrência de vazamentos e rompimentos de tubulações, especialmente durante os períodos de estiagem.

A Sabesp informa ainda que imóveis com caixas-d’água dimensionadas de acordo com as normas técnicas não costumam ser afetados pela redução da pressão, neste período de seca e El Niño. Para atender famílias de baixa renda sem reservação adequada, a companhia ampliou o programa Reserva Certa, que já instalou gratuitamente mais de 3 mil caixas-d’água para clientes enquadrados nas Tarifas Social e Vulnerável.

“A Companhia também reforça a importância do consumo consciente de água durante o período de estiagem e segue ampliando iniciativas de medição inteligente, que permitirão o monitoramento remoto do consumo e a identificação mais rápida de possíveis vazamentos”, explica a Sabesp.

Outras dicas da Sabesp para este período de El Niño são:

É importante que sempre seja feito o uso consciente da água. Confira algumas dicas:

1. Tome banhos mais curtos;

2. Deixe a torneira fechada enquanto escova os dentes ou faz a barba;

3. Evite usar a mangueira, prefira um balde com água;

4. Lembre-se de usar vassoura e balde com água, não a mangueira;

5. Dê preferência para lavar a roupa e a louça em outro dia ou use a lava-roupa e a lava-louça apenas quando elas estiverem na capacidade máxima;

6. Antes de lavar a louça, retire o excesso de comida com a esponja; deixe a torneira fechada ao ensaboar;

El Niño: mais detalhes do comitê em Cotia

A coordenação do grupo sobre o El Niño ficará a cargo do Gabinete do Prefeito (Vagner Santos/Prefeitura de Cotia)

Diante situação do El Niño, a gestão executiva de Cotia instituiu o Comitê Municipal de Governança Climática. O Decreto nº 9.629, assinado pelo prefeito Welington Formiga, cria um grupo permanente responsável por integrar as ações do município voltadas à prevenção, adaptação e resposta às mudanças climáticas.

Entre as atribuições do grupo contra o El Niño estão a elaboração e atualização de planos de contingência, o acompanhamento de indicadores climáticos, a proposição de medidas preventivas e corretivas, além da articulação de projetos relacionados à drenagem urbana, saneamento, arborização, educação ambiental e sustentabilidade.

O decreto também ressalta a necessidade de planejamento permanente para reduzir riscos, proteger a população, preservar os recursos naturais e garantir a continuidade dos serviços públicos ao longo desse El Niño.

O Comitê contra o El Niño é formado por representantes do Gabinete do Prefeito e das secretarias de Governo, Verde, Meio Ambiente e Agropecuária, Defesa Civil, Saúde, Obras e Infraestrutura, Planejamento, Transportes e Mobilidade, Educação, Desenvolvimento Social e Comunicação. Os representantes de cada pasta serão designados por portaria.

A coordenação do grupo sobre o El Niño ficará a cargo do Gabinete do Prefeito, enquanto a Secretaria do Verde, Meio Ambiente e Agropecuária exercerá a função de Secretaria-Executiva, atuando em conjunto com a Defesa Civil. O grupo também poderá convidar pesquisadores, universidades e representantes de órgãos públicos e da sociedade civil para contribuir com estudos e ações específicas.

O Comitê do El Niño vai se reunir ordinariamente e poderá ser convocado extraordinariamente em situações de emergência ou sempre que houver risco climático relevante, fortalecendo a capacidade do município de prevenir, monitorar e responder aos desafios impostos pelas mudanças climáticas.

Ações do governo do estado de São Paulo contra o El Niño

À reportagem, a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (SEMIL), por meio da SP Águas e em articulação com os demais órgãos do Estado, acompanha de forma contínua a evolução do fenômeno El Niño e seus possíveis impactos sobre os recursos hídricos e a infraestrutura paulista.

De acordo com análises climáticas internacionais, neste período de El Niño, há elevada probabilidade de consolidação do fenômeno nos próximos meses, o que pode provocar alterações no regime de chuvas durante a primavera e o verão.

“Para o Estado de São Paulo, os principais efeitos esperados incluem a elevação das temperaturas, o aumento da evaporação nos reservatórios e a ocorrência de eventos de chuva mais intensos, concentrados e distribuídos de forma irregular. Esses cenários podem aumentar tanto o risco de estiagens localizadas quanto de alagamentos e outros eventos hidrológicos extremos, exigindo monitoramento permanente e atuação integrada do poder público”, explicou a Semil.

Diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas do El Niño, o Governo de São Paulo afirma ter adotado uma estratégia preventiva baseada em monitoramento contínuo, projeções hidrológicas, planejamento e investimentos em infraestrutura resiliente.

Segundo o Estado, está em execução o maior plano de resiliência hídrica de sua história, com mais de R$ 25 bilhões destinados à ampliação da segurança hídrica, prevenção de enchentes, recuperação e desassoreamento de rios, aumento da oferta de água, soluções baseadas na natureza e modernização do monitoramento hidrometeorológico, ao longo desse período de El Niño.

Na Região Metropolitana de São Paulo, a principal frente é o Programa Integra Tietê, voltado à recuperação da capacidade de vazão do Rio Tietê e de seus afluentes. Desde 2023, o programa recebeu mais de R$ 1 bilhão em investimentos e retirou cerca de 5,96 milhões de metros cúbicos de sedimentos dos cursos d’água.

A SP Águas também realiza a limpeza e manutenção de 12 pôlderes na Marginal Tietê, estruturas que ajudam a evitar alagamentos ao armazenar temporariamente o excesso de água durante chuvas intensas.

Ações no Rio Tietê estão sendo desenvolvidas pelo Governo do Estado de SP (Divulgação/Pexels)

Outra frente envolve obras de macrodrenagem em áreas urbanas. Desde 2023, quase R$ 1 bilhão foi investido na construção de reservatórios de contenção de cheias. Entre eles está o Piscinão Jaboticabal (RM-19), entregue em dezembro de 2025 após investimento de R$ 573 milhões, beneficiando municípios do ABC Paulista e a capital.

Em Franco da Rocha, os reservatórios EU-09 e EU-08, já concluídos, somam capacidade para armazenar 268 mil metros cúbicos de água, o equivalente a 107 piscinas olímpicas. Também foi entregue, em abril deste ano, o reservatório TG-09, na divisa com Francisco Morato, com capacidade equivalente a 139 piscinas olímpicas e potencial para beneficiar cerca de 100 mil pessoas.

Já o Piscinão Antonico (RA-01), ao lado do Estádio do Morumbi, segue em construção. O projeto prevê a canalização do córrego Antonico e poderá armazenar mais de 44 milhões de litros de água, beneficiando mais de 1 milhão de moradores das regiões do Morumbi e Paraisópolis.

Além das obras, a SP Águas mantém a limpeza de 27 piscinões na Região Metropolitana, serviço que recebeu R$ 184,4 milhões em investimentos desde 2023.

No interior e no litoral paulista, o Programa Rios Vivos investiu R$ 323 milhões em ações de desassoreamento em cerca de 197 municípios, retirando mais de 4,6 milhões de metros cúbicos de resíduos dos rios. O Estado também ampliou o apoio financeiro às prefeituras por meio do Fehidro, que destinou R$ 926,4 milhões entre 2023 e 2025 para projetos de saneamento, drenagem e gestão dos recursos hídricos.

“A estratégia inclui ainda iniciativas de infraestrutura verde inspiradas no conceito de cidade-esponja. Áreas como o Parque Ecológico do Tietê e as várzeas da Guarapiranga e de Embu-Guaçu funcionam como reservatórios naturais, com capacidade conjunta para reter cerca de 3,2 bilhões de litros de água, reduzindo o impacto das chuvas intensas sobre a malha urbana”, disse o Governo do Estado paulista.

Na área de segurança hídrica, o Estado concluiu a perfuração de 140 poços profundos em 126 municípios para ampliar o abastecimento em regiões mais vulneráveis. Também modernizou a Sala de Situação da SP Águas, responsável pelo monitoramento hidrometeorológico em tempo real, como parte de um investimento de R$ 20 milhões na rede estadual de monitoramento, que fornece dados para emissão de alerta e apoio às ações da Defesa Civil.

O governo também atualizou, em junho, a metodologia de monitoramento da segurança hídrica da Região Metropolitana. O novo modelo considera os últimos 15 anos de comportamento hidrológico, incluindo períodos de El Niño e La Niña, além de incorporar análises específicas do Sistema Cantareira e projeções hidrológicas mais detalhadas para antecipar cenários e orientar medidas preventivas.

Outra novidade é a implantação de um modelo de projeção hidrológica para o Sistema Integrado Metropolitano (SIM), que reúne sete sistemas produtores, entre eles Cantareira e Alto Tietê. A ferramenta utiliza dados sobre vazões, volumes armazenados e cenários climáticos para orientar decisões operacionais, como ajustes na retirada de água e ações de gestão da demanda.

A SP Águas também está finalizando o Plano de Gestão Integrada de Riscos de Inundações (PGRI), elaborado para fortalecer o monitoramento, os sistemas de previsão e alerta e a articulação entre os órgãos responsáveis pela gestão dos recursos hídricos e pela resposta a eventos extremos.

Outra medida é o Protocolo de Escassez Hídrica, que estabelece ações técnicas e regulatórias para enfrentar períodos de baixa disponibilidade de água. Entre elas estão o reforço na fiscalização dos usos outorgados e, quando necessário, restrições temporárias à emissão de novas outorgas para usos não prioritários.

A preservação ambiental também integra a estratégia estadual. As 157 Unidades de Conservação administradas pela Fundação Florestal protegem cerca de 5 milhões de hectares de vegetação nativa, contribuindo para a conservação de nascentes e mananciais.

Na Região Metropolitana, destacam-se a APA Cantareira, responsável por proteger áreas que abastecem cerca de 40% do Sistema Cantareira, e o Parque Estadual do Morro Grande, que contribui para o abastecimento de aproximadamente 450 mil pessoas.

“Por fim, o Estado reforçou a integração entre a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) e a Defesa Civil para ampliar a resposta a eventos climáticos extremos. A parceria inclui ferramentas como o Muralha do Fogo e o Painel de Inteligência SP Sem Fogo, que utilizam dados meteorológicos, mapas de risco, câmeras e sistemas de monitoramento em tempo real para identificar ocorrências, priorizar áreas críticas e agilizar o atendimento às emergências”, ressalta o órgão

Plano de Contingência

El Niño coloca cidades da Região Oeste de SP em estado de atenção
O Estado de SP conta com plano de contigência para enfrentar o período de seca (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Aprovado em junho, o plano de contingência contra o El Niño do Governo de São Paulo para enfrentar o período de queimadas envolve neste ano 613 municípios, 55% a mais do que em 2024, e mais de 3 mil agentes, investimentos na compra de 100 caminhões-pipa, 23 viaturas, 220 kits de combate a incêndios e mais de 300 equipamentos, entre capacetes, torres de iluminação e sopradores para equipes de combate a incêndios.         

Como parte da preparação para o período crítico do El Niño, a Defesa Civil promoveu 16 treinamentos presenciais em todas as regiões do estado para capacitar agentes multiplicadores na prevenção e combate aos incêndios florestais. As atividades envolveram equipes municipais e abordaram temas como prevenção, estratégias operacionais, monitoramento e resposta rápida às ocorrências.

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