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Cineasta que produziu e dirigiu Alphaville do lado de dentro do muro,  fala sobre sucesso do documentário

Recortes do documentário viralizaram recentemente no TikTok, chegando a mais de 1,5 milhão de visualizações no YouTube
Imagem panorâmica do bairro Alphaville, SP (Pedrones Imagens Aéreas/Jornal Giro)

Após 13 anos do lançamento da obra, disponível no YouTube com 1,5 milhão de visualizações, Luiza Campos afirma à reportagem do GIRO que “todos têm o direito de escolher o melhor para nossas famílias”

Em 2009, a cineasta Luiza Campos fez um experimento para descobrir como é a vida por detrás dos muros dos luxuosos residenciais de Alphaville.

Na época, ela alugou uma casa e fez uma série de entrevistas com os seus vizinhos.

O filme está disponível no YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=RrUW_-5lZvA&t=555s) há mais de dez anos, entretanto, no começo deste ano, recortes dele começaram a viralizar no TikTok, chegando a mais de 1,5 milhão de visualizações.

Para Luiza, nesta entrevista exclusiva concedida à reportagem do Giro S/A, o que a deixou mais feliz foi a quenesta nova “descoberta” do filme foi o enorme debate que aconteceu nos comentários. Pessoas escreveram sobre detalhes do filme, contaram suas histórias, criticaram o filme, os personagens, elogiaram… Adoro ficar lendo os mais de 67 mil comentários deixados na plataforma”, declara.

Confira a reportagem completa abaixo:

Giro S/A. A sua percepção na época que gravou o documentário mudou de alguma forma?

Luiza Campos. Quando resolvi fazer o filme, tinha uma relação superficial com os condomínios, ia visitar alguns amigos da família e sempre achei  segregador esse estilo de vida. Me incomodava com esses ‘bairro murados”, que fora é um deserto e dentro um oásis. Como explico no início do filme, meu pai tinha um terreno no Alpha 01 e muito provavelmente eu teria crescido ali se não tivéssemos mudado para o Mato Grosso do Sul. Fui investigar o que leva as pessoas a fazerem esta escolha já com um olhar critico. O que me surpreendeu foi encontrar uma certa alienação coletiva, um reflexo dessa classe social com muito mais acesso a educação, viagens etc, que não reflete sobre as consequências de suas escolhas, seu papel na nossa sociedade. Hoje em dia vejo cidades seguras lotadas de condomínios. Eles esvaziam os bairros tradicionais, que ficam menos seguros, desvalorizados e criam um estilo de vida baseado no medo e falta de comunidade. Não sei se minha percepção realmente mudou, talvez eu tenho encontrado nesta experiência mais empatia pelas pessoas que fazem esta escolha, afinal todos temos o direito também de escolher o melhor para nossas famílias. A questão é bem complexa, e todos nós fazemos parte do problema e solução. 

Giro S/A. Eu me impressionei mais com as crianças que vivem cercadas por seguranças e que, depois, na vida real, sentem medo, o que talvez seja natural… para você, esta foi uma das descobertas chocantes no documentário?

Luiza Campos. Sim, fiquei extremamente sensibilizada com as crianças, que apesar do discurso “aqui eu posso brincar na rua” na verdade não tinham para onde ir, ficavam muito pouco nas ruas e rapidamente entediadas. A distancia com que vivem de tudo que é “diferente” gera medo e ansiedade. Como criar pessoas com empatia e vontade de mudança social e ambiental neste ambiente tão segregador?

Giro S/A. O que mais te incomodou na época da filmagem?

Luiza Campos. O desprezo das pessoas pelas classes menos favorecidas, a vontade genuína de não conviver com o diferente. E a falta de reflexão sobre esse estilo de vida. Tudo naturalmente artificial.

Giro S/A. Essa segregação que você demonstrou no documentário entre ricos e pobres, brancos e negros… veio muito à tona nesse atual governo… pra você, o Brasil é realmente um país que gosta de exclusões?

Luiza Campos. Acredito que o Brasil é um pais muito racista e que não encara seus problemas históricos com a seriedade necessária. Nossa “elite” cultural e econômica se sente ameaçada e vitimada por uma situação fomentada por ela própria. 

Giro S/A. Qual é a lição de vida que você tirou com esse documentário, pessoalmente?

Luiza Campos. Não moraria nem criaria meus filhos neste ambiente, por mais confortável que pareça. 

Giro S/A. Qual a mensagem que quis passar para as outras pessoas?

Luiza Campos. Minha vontade foi criar uma reflexão. Precisamos pensar nas nossas escolhas, criar complexidade, afinal elas tem consequências, tanto para o entorno quanto para as nossas famílias. Morar num condomínio com segurança máxima parece aceitável num país com  problemas sociais, mas ao mesmo tempo essa segregação gera mais violência e uma elite cada vez mais  apática e individualista. O que me deixou mais feliz nesta nova “descoberta” do filme foi o enorme debate que aconteceu nos comentários sobre o filme no YouTube. Pessoas escreveram sobre detalhes do filme, contaram suas histórias, criticaram o filme, os personagens, elogiaram… Adoro ficar lendo os mais de 67 mil comentários deixados na plataforma. 


Giro S/A. Por que acha que o documentário fez mais sucesso agora que na época que ele foi lançado?

Luiza Campos. Na época não existia canais de streaming e ele acabou fazendo o circuito dos festivais e canais internacionais. Eu resolvi colocar ele no Youtube, pois muitos professores universitários de Urbanismo, Sociologia me pediam para usar em sala de aula. Uma dessas alunas me encontrou e pediu o filme para mostrar para a mãe. Eu pensei, vou subir, assim fica mais fácil. O sucesso foi surpreendente. O filme é muito atual, vemos ali o pensamento sem filtro da vontade da classe média e alta de manter o status qo, o medo que segrega, a alienação e a ignorância que nos trouxeram a este governo baseado na mediocridade.