Diego Capellotto Reis Cardim, de 16 anos, realizou transplante de fígado há quatro anos. O órgão foi doado pelo pai. “Comemoramos dois aniversários: o dia que meu filho nasceu e o dia que renasceu, com direito a presente e bolo”, conta, emocionada, a mãe, a fisioterapeuta Raquel Camargo Capellotto, que completa: “é de extrema importância a doação de órgãos.”
A empreendedora Ana Cristina Ramos Navarro realizou transplante de córnea há 30 anos do olho esquerdo. Há quatro meses, fez do direito. Ana Cristina ficou na fila do transplante: a primeira vez foram sete anos; a segunda 1 ano e oito meses. Ela terá que refazer o olho esquerdo já que a córnea transplantada tem prazo de validade, em torno de 15 anos. “Sem as minhas novas córneas eu não poderia trabalhar e ver meus filhos crescer”, diz ela.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que o Brasil é o segundo país com maior número de transplantes no mundo, atrás dos EUA. “E 96% dos procedimentos são custeados pelo SUS”, afirma a Dra. Bianca Cassão, médica assistente do ambulatório do Hospital do Rim. “Nos últimos três anos foram de 900 a 1 mil transplantes”, ressalta.
Porém, os números de doações têm caído. “O grande problema é a conscientização da população. Seja porque o familiar do paciente não entende o que é morte encefálica, ou por religião”, diz. Segundo a médica, 36% das famílias entrevistadas nos hospitais negam o processo de doação, porcentagem que se manteve nos últimos quatro anos.
PL pode mudar doações
Atualmente, os órgãos só podem ser doados se a família permitir, mesmo nos casos em que a pessoa enfatizar que quer doá-los. Um projeto em tramitação no Senado pode mudar isso e aumentar o volume de transplantes no país.
O senador Major Olimpio (PSL) propõe revisar a legislação que regulamenta a doação pós-morte, a lei 9.434, de 1997. O PL 3.176/2019 coloca a doação na condição de consentimento presumido. Isso significa que caso a pessoa maior de 16 anos não se manifeste contrária à doação, é considerada doadora.
O projeto também quer enquadrar os crimes ligados à remoção de órgãos na Lei de Crimes Hediondos, a 8.072, de 1990.
Fila e mortes
No 1º semestre de 2019, 17.116 pacientes entraram na lista de espera de transplantes, com índice de mortalidade de 1.031. Pedidos de córneas lideram, 9.505, com mortalidade de 28. A mortalidade de quem precisa de um rim foi de 584, apesar do ingresso de 5.563 pessoas na lista de espera. Dados ABTO.Cresce e cai
Transplantes hepático, pulmonar, de rim e de córnea caíram: 3,8%, 16,7%, 0,3% e 4,3%, respectivamente. Os cardíacos e de pâncreas cresceram 11,8% e 14,3%, respectivamente. O de coração cresceu 1,9 pmp de janeiro a junho de 2019 e aproximou-se da meta de 2,1 pmp.
Mais de 35 mil na fila
Os órgãos têm vida útil. Segundo dados de 2019 da ABTO, o Brasil tinha 35.519 de pacientes ativos em lista de espera, em junho de 2019, considerando-se coração, pulmão, rim, fígado, pâncreas, pâncreas/rim e córnea. A maior fila é a do rim (22.007), seguida pela córnea (9.383). O Estado de SP concentra 15.687 em espera.
Dos pacientes pediátricos, 668 crianças esperam por um transplante de rim no Brasil (dados de junho/2019), além de 234 aguardando uma córnea.








