Mais de 35% das famílias negam doação de órgãos

Diego, que fez transplante de fígado, com a mãe Raquel. Brasil é o segundo em transplantes no mundo.

Diego Capellotto Reis Cardim, de 16 anos, realizou transplante de fígado há quatro anos. O órgão foi doado pelo pai. “Comemoramos dois aniversários: o dia que meu filho nasceu e o dia que renasceu, com direito a presente e bolo”, conta, emocionada, a mãe, a fisioterapeuta Raquel Camargo Capellotto, que completa: “é de extrema importância a doação de órgãos.” 

2º lugar. Transplante de córnea é um dos mais pedidos

A empreendedora Ana Cristina Navarro passou por cirurgia de transplante de córnea há 30 anos (Foto: Edivaldo Santana)

A empreendedora Ana Cristina Ramos Navarro realizou transplante de córnea há 30 anos do olho esquerdo. Há quatro meses, fez do direito. Ana Cristina ficou na fila do transplante: a primeira vez foram sete anos; a segunda 1 ano e oito meses. Ela terá que refazer o olho esquerdo já que a córnea transplantada tem prazo de validade, em torno de 15 anos. “Sem as minhas novas córneas eu não poderia trabalhar e ver meus filhos crescer”, diz ela.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que o Brasil é o segundo país com maior número de transplantes no mundo, atrás dos EUA. “E 96% dos procedimentos são custeados pelo SUS”, afirma a Dra. Bianca Cassão, médica assistente do ambulatório do Hospital do Rim. “Nos últimos três anos foram de 900 a 1 mil transplantes”, ressalta.

Porém, os números de doações têm caído. “O grande problema é a conscientização da população. Seja porque o familiar do paciente não entende o que é morte encefálica, ou por religião”, diz. Segundo a médica, 36% das famílias entrevistadas nos hospitais negam o processo de doação, porcentagem que se manteve nos últimos quatro anos.

PL pode mudar doações

Atualmente, os órgãos só podem ser doados se a família permitir, mesmo nos casos em que a pessoa enfatizar que quer doá-los. Um projeto em tramitação no Senado pode mudar isso e aumentar o volume de transplantes no país.

O senador Major Olimpio (PSL) propõe revisar a legislação que regulamenta a doação pós-morte, a lei 9.434, de 1997. O PL 3.176/2019 coloca a doação na condição de consentimento presumido. Isso significa que caso a pessoa maior de 16 anos não se manifeste contrária à doação, é considerada doadora.
O projeto também quer enquadrar os crimes ligados à remoção de órgãos na Lei de Crimes Hediondos, a 8.072, de 1990.

​Fila e mortes

No 1º semestre de 2019, 17.116 pacientes entraram na lista de espera de transplantes, com índice de mortalidade de 1.031. Pedidos de córneas lideram, 9.505, com mortalidade de 28. A mortalidade de quem precisa de um rim foi de 584, apesar do ingresso de 5.563 pessoas na lista de espera. Dados ABTO.

Cresce e cai
Transplantes hepático, pulmonar, de rim e de córnea caíram: 3,8%, 16,7%, 0,3% e 4,3%, respectivamente. Os cardíacos e de pâncreas cresceram 11,8% e 14,3%, respectivamente. O de coração cresceu 1,9 pmp de janeiro a junho de 2019 e aproximou-se da meta de 2,1 pmp.

Mais de 35 mil na fila

Para o aposentado Rodrigo Araujo o transplante foi essencial. “Ele fez dois transplantes, um duplo – pâncreas e rim -, há 12 anos, na mesma cirurgia; e em 2018 realizou do mesmo rim. Araujo ficou na fila de transplantes. “Fiquei um ano e meio na fila na primeira cirurgia. Mas conheci pessoas que esperaram 14 anos. Hoje, alguns ficam mais de cinco anos”, conta.

Os órgãos têm vida útil. Segundo dados de 2019 da ABTO, o Brasil tinha 35.519 de pacientes ativos em lista de espera, em junho de 2019, considerando-se coração, pulmão, rim, fígado, pâncreas, pâncreas/rim e córnea. A maior fila é a do rim (22.007), seguida pela córnea (9.383). O Estado de SP concentra 15.687 em espera.

Dos pacientes pediátricos, 668 crianças esperam por um transplante de rim no Brasil (dados de junho/2019), além de 234 aguardando uma córnea.