Gráfica em Barueri: 215 milhões de Bíblias produzidas em 88 idiomas

Localizada na avenida Ceci, no Tamboré, em Barueri, a gráfica está instalada em um galpão de mais de 7 mil metros quadrados e 350 colaboradores; veja mais
Gráfica em Barueri já produziu 215 milhões de Bíblias em 88 idiomas
O crescimento dos aplicativos e das versões digitais também transformou o mercado, mas não eliminou a procura pela Bíblia física (Divulgação/SBB)

Você já parou para pensar em como uma Bíblia é produzida? Em Barueri, uma gráfica especializada na impressão de livros religiosos já colocou no mercado 215 milhões de exemplares em 88 idiomas.

A produção envolve diferentes etapas, desde a preparação das páginas até a impressão, acabamento e distribuição das obras para diferentes partes do mundo, chegando a 122 países.

Localizada na avenida Ceci, no Tamboré, em Barueri, a gráfica está instalada em um galpão de 7.134 metros quadrados. O local tem 350 colaboradores que trabalham exclusivamente na produção de Bíblias. Por dia, cerca de 30 mil exemplares ficam prontos na unidade.

De acordo com a Sociedade Bíblica Brasileira (SBB), responsável pelo local, o espaço é considerado o maior da América Latina dedicado exclusivamente à impressão de Bíblias. Já a maior gráfica do mundo que produz Bíblia fica na costa leste da China.

Conforme dados da entidade, nos anos de 2024 e 2025, a unidade produziu, em média, oito milhões de exemplares por ano. Desde a inauguração, já foram 215 milhões de Bíblias fabricadas, 30% delas destinadas à exportação.

Um relatório das Sociedades Bíblicas Unidas aponta que o Brasil também liderou, em 2025, a distribuição de Bíblias completas impressas no mundo. Foram 3,37 milhões de exemplares distribuídos no país, à frente de Índia, China, Nigéria e Filipinas.

Barueri: diagramação e escolha do papel marcam o início do processo

A diagramação depende do tipo de edição e da complexidade do livro (Reprodução/G1)

A produção da Bíblia começa com a pré-impressão. Nessa etapa, os arquivos são preparados para que o conteúdo possa ser reproduzido no papel e a diagramação depende do tipo de edição e da complexidade do livro.

Para a montagem de uma edição da Bíblia com notas, por exemplo, exige-se um trabalho diferente de uma edição mais simples. Segundo o diretor-presidente da gráfica, reverendo Erní Seibert, essa etapa pode levar semanas ou meses.

“Uma coisa é a diagramação. Essa diagramação depende da complexidade, se tem notas ou não, mas leva entre semanas ou meses. Pode ser alguns meses ou pode ser mais meses, mas é menos de um ano.”

Já para edições que ainda não contam com traduções, o processo é mais longo. O sacerdote explica que uma tradução bíblica séria não leva menos de cinco anos. “A tradução sempre é o [processo] mais demorado. Não é uma tradução bíblica séria se levar menos de 5 anos.”

O papel precisa ser fino, mas resistente. A gráfica, em Barueri, utiliza o chamado “papel-Bíblia”, com gramatura de 28 gramas por metro quadrado. É um material mais fino e leve do que o papel offset utilizado em livros comuns, que costuma ter gramatura de 75 ou 90 g/m².

O Brasil não produz esse tipo específico de papel e, para produzir as Bíblias, o material é comprado da Europa e da Ásia. A gráfica importa o produto principalmente da Finlândia e utiliza cerca de 800 quilômetros desse papel por dia

“A celulose que compõe tem que ser de fibra longa, senão ele arrebenta, e isso só o clima frio faz”, diz o diretor.

Seibert explica que o prazo para que o papel chegue à gráfica, em Barueri, também interfere no planejamento da produção. A compra pode levar de dois a quatro meses, considerando a fabricação, o transporte e os procedimentos de entrada no país.

“Eu encomendo o papel e eles, provavelmente, vão fazer isso numa tiragem maior do que esses meus 10 mil livros que eu quero. Então, eu digo: ‘São tantas toneladas’ até eles fazerem o papel, despacharem, passar pela aduana do país de origem, passar pela aduana brasileira e chegar aqui. Isso leva no mínimo dois meses. Se não houver nenhuma interrupção de guerra, se houver navio à disposição, é normalmente de 2 a 4 meses.”

Impressão é apenas uma parte do processo

Com o papel preparado e os arquivos revisados, começa a impressão. A gráfica, em Barueri, conta com 40 máquinas, capazes de produzir cerca de 27 mil páginas por minuto, considerando uma Bíblia média formada por 18 cadernos de 64 páginas.

O processo combina máquinas rotativas e planas. Das quatro rotativas da unidade, todas são destinadas à impressão de Bíblias. Mas as páginas ainda estão longe de formar o livro: após impressos, os cadernos precisam ser reunidos na ordem correta para formar o bloco de páginas.

“Uma Bíblia é composta por 12 cadernos, 17, depende do tamanho da letra, do tamanho da Bíblia. Então, esses cadernos, quando são impressos, são juntados e formam um bloco”, explica Seibert.

Cadernos são reunidos e costurados na gráfica

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Nem todas as etapas da capa são feitas na gráfica em Barueri (Divulgação/G1)

Na sequência, os cadernos passam pelo colecionamento, etapa em que são organizados na ordem correta, e depois seguem para a costura. Feita por máquinas automáticas com linha, a etapa une os cadernos e dá resistência ao bloco, característica importante devido ao peso e ao grande número de páginas.

Para evitar erros, a gráfica utiliza sistemas de controle durante o processo. Máquinas verificam a ordem dos cadernos, enquanto câmeras acompanham a costura e identificam possíveis falhas.

O desafio das páginas finas

Um dos desafios da produção está na espessura do papel. Como as folhas são muito finas, é possível enxergar a impressão do verso, o que exige precisão para que o texto de um lado não prejudique a leitura do outro.

“Como esse papel é muito fino, você consegue ver que do outro lado tem alguma coisa impressa. […] Agora, por que você consegue ler aqui sem problemas? Porque uma linha tem que ser impressa exatamente sobre a linha do outro lado”, explica Seibert.

Além do alinhamento da impressão, fatores como espaçamento entre as linhas e margens também são considerados para garantir a legibilidade.

Com os cadernos impressos, revisados e costurados, o material segue para uma nova sequência de etapas: colagem da lombada, refile do bloco, aplicação de corte dourado ou pintura nas bordas, montagem da capa e encadernação.

O processo varia conforme o modelo. Bíblias com zíper, por exemplo, exigem maior participação manual, enquanto versões de brochura e capa dura podem passar por etapas automatizadas. Alguns detalhes também são feitos à mão, como a aplicação dos índices com os nomes dos livros na lateral das páginas.

A capa também faz parte da produção

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Capa é o primeiro contato do leitor com a obra (Divulgação/SBB)

Além de proteger o conteúdo, a capa ajuda a identificar o perfil da edição. Ao longo dos anos, a gráfica passou a produzir modelos variados, com diferentes cores e materiais, além de versões voltadas para públicos específicos, como crianças, mulheres e leitores de estudo.

“A capa é o primeiro olhar que você lança sobre aquilo. Então, você olha essa capa e diz que é para um momento especial”, afirma Seibert.

Segundo ele, a transformação acompanhou tanto a evolução das artes gráficas quanto as mudanças no perfil dos leitores. Durante décadas, capas pretas e marrons predominavam no mercado editorial, inclusive nas Bíblias.

“A gente dizia: a Bíblia pode ter qualquer cor de capa, desde que seja preta”, conta.

Um exemplo dessa mudança foi a Bíblia com capa jeans, criada na década de 1990 a partir de uma referência de edições produzidas para o público hispânico. “A Bíblia jeans, essa foi mais ou menos nos anos 90 que a gente inventou, porque nós copiamos a ideia dos hispanos. Eles fizeram, e o jovem amou aquela capa.”

A escolha também leva em conta aspectos culturais. Segundo Seibert, uma cor ou modelo que não seja bem recebido por determinado público pode influenciar a aceitação do produto.

Nem todas as etapas de produção das capas, porém, são realizadas em Barueri. Modelos que exigem impressão em quatro cores podem ser encaminhados para outras gráficas, já que a unidade não possui equipamentos específicos para esse tipo de trabalho.

Revisão acompanha todas as etapas

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Os cadernos também passam por verificações durante a montagem (Reprodução/G1)

O controle de qualidade começa antes da impressão e acompanha todo o processo, da preparação do texto à encadernação. A gráfica utiliza checklists e sistemas automatizados para identificar possíveis falhas.

“Vamos começar pelo texto, que tem pontos de revisão no texto. Hoje, isso é tudo feito de forma computadorizada. Então, programas especiais dizem se faltou um versículo, se faltou uma palavra”, explica Seibert.

Os cadernos também passam por verificações durante a montagem. Marcas gráficas são lidas por equipamentos para confirmar se estão na posição correta e se a sequência está completa.

A gráfica não realiza uma conferência página por página de cada exemplar. O controle é distribuído pelas diferentes etapas, com inspeções feitas por operadores e equipamentos que verificam os padrões de qualidade. Quando um defeito é identificado, a tentativa é recuperar o exemplar durante a própria produção. Caso isso não seja possível, o material é encaminhado para reciclagem.

Da gráfica de Barueri para 122 países

Após concluídas todas as etapas, as Bíblias são embaladas e seguem para distribuição no Brasil e no exterior. Em 2024 e 2025, a unidade produziu, em média, 8 milhões de exemplares por ano. O espaço foi fundado em 1993.

A capacidade atual é resultado da expansão da gráfica desde sua criação. Segundo Seibert, a unidade foi inicialmente projetada para produzir 2 milhões de Bíblias por ano, mas a demanda fez o volume crescer rapidamente.

“Como a gente já fazia 1 milhão de Bíblias para o Brasil, ela foi planejada para fazer 2 milhões. A gente achava que ia explodir com 2 milhões em 10, 20 anos, mas em poucos anos já estávamos fazendo 4 milhões.”

A previsão é chegar a 9 milhões de exemplares produzidos neste ano. Desde a fundação, a gráfica já fabricou 215 milhões de Bíblias, sendo cerca de 30% destinadas à exportação para outras Sociedades Bíblicas. Os exemplares produzidos em Barueri chegam a 122 países.

A unidade também se consolidou como centro de produção para outras Sociedades Bíblicas. “Nós somos a maior gráfica dedicada a Bíblias. Tem outras gráficas que fazem Bíblias e outros livros, e são maiores que essa gráfica. Mas esse é um centro de produção de Bíblias, Novos Testamentos, e o que a gente faz aqui é produzir exclusivamente Bíblias, por isso somos os maiores neste ramo”, afirma Seibert.

Bíblias em 88 idiomas

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A previsão é chegar a 9 milhões de exemplares produzidos neste ano (Divulgação/SBB)

A gráfica produz exemplares em 88 idiomas, incluindo versões em braille. O português é a língua mais produzida, seguido pelo espanhol.

A unidade também recebe encomendas em idiomas menos difundidos. Entre os exemplos está um Novo Testamento produzido em uma língua falada por uma comunidade indígena do Pará, com tiragem de 500 exemplares.

Em alguns casos, o trabalho começa antes mesmo da impressão, com pesquisas e processos linguísticos necessários para registrar e estruturar a língua.

O digital mudou, mas não eliminou a Bíblia impressa

O crescimento dos aplicativos e das versões digitais também transformou o mercado, mas não eliminou a procura pela Bíblia física. A Sociedade Bíblica do Brasil mantém aplicativos, enquanto a gráfica continua produzindo milhões de exemplares impressos.

Segundo Seibert, uma das mudanças provocadas pelo digital foi a transformação do catálogo, com aumento da procura por edições com letras maiores e diferentes formatos de leitura.

Para consultas rápidas, o celular ganhou espaço pela praticidade. Já momentos de leitura prolongada, estudos, práticas devocionais e encontros familiares continuam associados, em muitos casos, ao livro físico.

“Se você quer fazer uma consulta a um texto bíblico, o que está no Salmo 23, você vai no digital porque é muito mais prático, e o telefone está com você em qualquer lugar. Mas quando a pessoa quer ler a Bíblia, quer fazer uma leitura bíblica, uma leitura devocional, em casa ou com a família ou com o grupo, normalmente as pessoas usam a Bíblia [física]”, explica.

Por que a Bíblia continua sendo tão lida?

Para Seibert, a permanência da Bíblia entre os livros mais lidos e distribuídos está relacionada à capacidade da obra de dialogar com diferentes momentos da vida.

“Os problemas humanos estão ali dentro e por isso ela continua sendo lida. Não é um livro que você lê e diz: ‘Eu já li esse livro, vou ler outro’. Ela dialoga com o ser humano.”

Segundo ele, essa relação ajuda a explicar por que a Bíblia continua presente em momentos como luto, guerra, casamento, formatura e nascimento de uma criança — situações em que leitores procuram no texto respostas, conforto ou palavras que façam sentido para aquele momento.

*Com informações do G1.

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