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Após 70 anos fechado, cinema de luxo de SP será reaberto com R$ 25 milhões

O Cine Rosário foi construído como parte do complexo do Edifício Martinelli, no centro de São Paulo. Inauguração ocorreu 1929; saiba mais
Após 70 anos fechado, cinema de luxo de SP será reaberto com R$ 25 milhões
O Grupo Tokyo projeta encerrar 2026 com faturamento entre R$ 40 milhões e R$ 45 milhões (Divulgação/Grupo Tokyo)

A cidade de São Paulo irá ganhar um novo empreendimento cultural: o Grupo Tokyo vai recuperar o espaço do Cine Rosário. Localizada dentro do Edifício Martinelli, no centro da capital paulista, o cinema comportará projeção de filmes e teatro com programação própria.

Inaugurado em 1929, o equipamento já chegou a receber cerca de 1.000 espectadores durante seu auge, o cinema se tornou um dos cinemas mais conhecidos e luxuosos da região central de São Paulo. No entanto, suas atividades foram encerradas em 1955.

Para a reabertura do Cine Rosário, o Grupo Tokyo, responsável pela concessão de áreas do Martinelli, terá um investimento de R$ 25 milhões e se transformará em uma nova sala de espetáculos.

A obra faz parte do projeto mais amplo de restauração e readequação do Martinelli. Segundo Fábio Floriano, CEO e sócio-fundador do Grupo Tokyo, as ações atualmente estimadas em cerca de R$ 100 milhões. Até agora, R$ 20 milhões desse montante já foram investidos. O novo Cine Rosário não deverá funcionar como um multiplex tradicional. A proposta é recuperar o conceito de cinema de rua, com curadoria própria e possibilidade de alternar sessões de filmes, peças e outras apresentações.

“A experiência completa não é ticket e pipoca. Ela é outras coisas acontecendo dentro daquele espaço”, diz Floriano. No Martinelli, Floriano tem como sócios Rafael Guedes e Paulo Roberto Passini Jr.

Cine Rosário: como era o espaço inaugurado no fim dos anos 1920

Primeiro filme exibido no cinema foi o longa “O Pagão” (Reprodução/São Paulo Antiga)

O Cine Rosário foi construído como parte do complexo do Edifício Martinelli, no centro de São Paulo. O arranha-céu foi projetado pelo italiano Giuseppe Martinelli e começou a ser construído em 1924, como símbolo do processo de modernização da cidade. Mais de 600 operários participaram das obras, concluídas em 1929, quando o edifício tinha 20 andares.

O cinema surgiu a partir da incorporação de um imóvel vizinho, na Rua São Bento, que foi adquirido por Martinelli e posteriormente demolido. A área passou a integrar o empreendimento e ficou conhecida como bloco do cinema.

A inauguração do Rosário ocorreu em setembro de 1929, com uma sessão de gala que reuniu autoridades, empresários e integrantes da elite paulistana. No dia seguinte, a sala foi aberta ao público.

O primeiro filme exibido foi “O Pagão”, produção da MGM estrelada por Ramón Novarro. A sessão contou com acompanhamento de orquestra e teve a presença do então prefeito de São Paulo, José Pires do Rio.

Com aproximadamente mil lugares, o Rosário chamou atenção pelo tamanho e pelo padrão de acabamento. Na época, chegou a ser descrito como o cinema mais luxuoso da cidade. A sala passou a disputar público com outros cinemas que ajudaram a transformar o centro de São Paulo em um dos principais polos cinematográficos da capital durante boa parte do século XX.

A trajetória, porém, durou menos de três décadas. O Cine Rosário encerrou as atividades em 1955.

O que ainda resta do cinema original?

A proposta, entretanto, não é reproduzir exatamente o cinema de 1929 (Divulgação/Grupo Tokyo)

Pouco da configuração original do cinema pode ser visto atualmente. Segundo Floriano, o espaço perdeu as características de uma sala de exibição e hoje preserva principalmente a estrutura física do antigo Rosário.

As prospecções realizadas para o novo projeto, no entanto, encontraram elementos que permaneceram escondidos sob intervenções feitas ao longo das décadas. Um deles está no teto.

Com a retirada de placas de gesso instaladas posteriormente, a equipe encontrou elementos decorativos e pinturas originais. A expectativa do Grupo Tokyo é recuperar o que estiver preservado e incorporar parte desses elementos ao novo projeto.

“Ele não é mais o cinema. É só o espaço onde tinha. A gente descobriu, por exemplo, que o teto tem os afrescos originais ainda. Tem placas de gesso que a gente remove e estão os afrescos lá em cima”, diz Floriano.

Fotografias históricas também ajudam a reconstruir a aparência do Rosário. As imagens mostram uma grande sala de projeção, com elementos decorativos e estruturas próximas à tela.

A proposta, entretanto, não é reproduzir exatamente o cinema de 1929. A nova sala precisará atender às exigências atuais de acústica, acessibilidade, segurança e tecnologia. O projeto busca conciliar essas adaptações com a preservação dos elementos históricos que ainda existirem no local.

 Como será a programação do Cine Rosário

O calendário de programação ainda não foi definido (Reprodução/Grupo Tokyo)

A proposta do Grupo Tokyo é criar uma alternativa ao modelo tradicional dos cinemas instalados em shopping centers. A empresa não pretende reproduzir a programação dos grandes multiplexes e aposta em uma curadoria própria, além da possibilidade de receber outras manifestações culturais.

“A nossa tese para cinema é: se eu quero cinema de shopping, eu vou ao shopping”, diz Floriano. “A nossa ideia é trabalhar na curadoria. Por que você vai ao cinema de rua? Porque a programação é diferente, porque o que está sendo oferecido é diferente.”

O calendário de programação ainda não foi definido, assim como a capacidade final da nova sala. Por isso, os cerca de mil lugares do Rosário original não significam que o espaço terá o mesmo número de assentos após a reforma.

A flexibilidade faz parte da estratégia do Grupo Tokyo para o Martinelli. Em vez de dedicar o espaço a uma única atividade, a empresa pretende reunir diferentes usos culturais no edifício e manter uma programação ao longo do dia e da noite.

Quando o cinema deverá reabrir?

O cronograma de reabertura do Rosário está ligado à conclusão das demais obras do Martinelli. Segundo Floriano, o grupo ainda depende de aprovações dos órgãos responsáveis pela preservação do patrimônio. Depois dessa etapa, a expectativa é concluir as intervenções em até 18 meses.

O projeto inclui ainda a construção de dois novos elevadores para atender o edifício. De acordo com o executivo, o prazo de fabricação e instalação dos equipamentos está entre os fatores que influenciam o calendário das obras.

A concessão das áreas turísticas do Martinelli foi vencida pelo Grupo Tokyo em 2023, e a empresa recebeu a posse do espaço em novembro daquele ano.

O restante do edifício continua sendo utilizado para outras finalidades. A maior parte do Martinelli é ocupada pelo poder público e abriga estruturas da administração municipal.

Edifício Martinelli: veja outras atrações do complexo

O cinema será apenas uma das atrações do novo complexo. O projeto prevê duas galerias de arte, espaços para workshops e eventos, mirantes, áreas para festas, um restaurante com capacidade para cerca de 240 pessoas, café, loja de arte e design, estúdio para produção de conteúdo e uma instalação imersiva dedicada à história do Martinelli e do centro de São Paulo.

Quando todo o projeto estiver em funcionamento, a expectativa apresentada por Floriano é receber cerca de 1 milhão de visitantes por ano, considerando as atividades realizadas durante o dia e à noite.

Atualmente, apenas parte da área destinada à operação cultural está aberta. Segundo o executivo, cerca de 20% do espaço total é utilizado para visitas guiadas, eventos e atividades no mirante. Com isso, as obras podem avançar nas demais áreas sem a necessidade de interromper completamente a operação.

A decisão de manter o Martinelli aberto durante as obras não estava prevista inicialmente. Em 2024, quando o edifício completou 100 anos do início de sua construção, o grupo criou uma ocupação temporária de 100 dias, batizada de M100.

O Edifício foi projetado pelo seu idealizador, o italiano Giuseppe Martinelli (Matheus Valentim/Prefeitura de SP)

O espaço recebeu exposições, atividades de design, lançamentos musicais, eventos e visitas guiadas. A resposta do público e do poder público levou o grupo a manter a operação enquanto as demais intervenções avançavam.

O orçamento do projeto também aumentou. Atualmente, Floriano estima o investimento total nas intervenções do Martinelli em R$ 100 milhões, financiados com recursos próprios e patrocínios.

Investimentos do Grupo Tokyo em prédios antigos

O Grupo Tokyo projeta encerrar 2026 com faturamento entre R$ 40 milhões e R$ 45 milhões, e o Martinelli se tornou a principal vitrine de uma nova frente de negócios da empresa.

Conhecida inicialmente pela operação de entretenimento na Rua Major Sertório, a companhia passou a direcionar parte de sua expansão para imóveis históricos e tombados do centro de São Paulo.

A estratégia recebeu o nome de Epicentro e prevê a ocupação de espaços subutilizados em edifícios antigos com restaurantes, bares, cinemas, espaços musicais, galerias e outros equipamentos culturais.

Segundo Floriano, quatro endereços ligados ao projeto já estavam contratados e em implantação. Entre os projetos públicos estão espaços no Edifício Itália e no Edifício Renata. Outros imóveis permanecem em negociação.

*com informações da revista Exame

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