A evolução da oncologia nas últimas décadas tem transformado o tratamento do câncer de mama no Brasil. Técnicas cirúrgicas menos invasivas, que preservam estruturas da mama, e terapias cada vez mais personalizadas estão ampliando as possibilidades de tratamento e reduzindo impactos físicos e emocionais para as pacientes.
Segundo o cirurgião oncológico Ricardo Antunes, presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia e responsável pela cirurgia oncológica do Instituto Paulista de Cancerologia (IPC), a cirurgia mamária passou por mudanças importantes nos últimos anos.
Uma das técnicas que vem ganhando espaço é a mastectomia com preservação da pele, da aréola e do mamilo. “Quando indicada, a cirurgia permite a retirada da glândula mamária mantendo estruturas externas da mama, o que possibilita reconstrução imediata e um resultado estético mais próximo da anatomia original. A técnica pode contribuir para melhor recuperação emocional e qualidade de vida após o tratamento”, explica.
Tratamento cada vez mais individualizado
Além das mudanças nas técnicas cirúrgicas, o tratamento do câncer de mama também tem sido impactado pela evolução da chamada oncologia personalizada. “Exames genéticos e testes de assinatura molecular passaram a orientar decisões terapêuticas com maior precisão. Esses exames ajudam a identificar características específicas do tumor e a definir, por exemplo, a necessidade ou não de quimioterapia”, revela.
Segundo Antunes, esse avanço permite selecionar terapias mais direcionadas para cada paciente, com aumento da sobrevida livre da doença e redução de efeitos colaterais.
Apesar do avanço científico, o acesso a parte dessas tecnologias ainda é limitado no sistema público de saúde. Muitos tratamentos mais modernos permanecem restritos ao setor privado devido ao alto custo.
Incidência segue elevada no país
Mesmo com os avanços no tratamento, o câncer de mama continua sendo o tumor mais frequente entre mulheres brasileiras e a principal causa de morte por câncer nesse grupo.
A estimativa é de que o país registre mais de 73 mil novos casos em 2026. A maior incidência ocorre entre mulheres acima dos 50 anos, embora diagnósticos também sejam registrados em pacientes com menos de 40 anos, principalmente nas regiões Sul e Sudeste.
Nos casos em mulheres jovens, que representam de 4% a 10% dos diagnósticos, os tumores tendem a apresentar comportamento mais agressivo e são frequentemente identificados em estágios mais avançados.
Fatores que influenciam o risco
A genética está associada a uma parcela limitada dos casos. Estima-se que menos de 15% das ocorrências tenham relação direta com herança familiar.
Entre os fatores que podem aumentar o risco estão obesidade, sedentarismo, consumo excessivo de álcool, tabagismo e histórico familiar da doença. Aspectos reprodutivos também são considerados, como menstruação precoce e gravidez em idade mais avançada.
Diagnóstico precoce amplia chances de cura
Para especialistas, a detecção precoce continua sendo a principal estratégia para reduzir a mortalidade causada pela doença. “Quando o tumor é identificado em estágio inicial, as chances de cura ultrapassam 90% e, em muitos casos, é possível evitar tratamentos mais agressivos, como a quimioterapia”, disse.
O principal exame de rastreamento é a mamografia, recomendada pela Sociedade Brasileira de Cancerologia a partir dos 40 anos, podendo ser associada à ultrassonografia, especialmente em mulheres com histórico familiar.
Um dos desafios no país, segundo especialistas, é ampliar o acesso ao rastreamento e aos exames diagnósticos em todas as regiões.
Sinais que não devem ser ignorados
Mesmo fora da faixa etária considerada de maior risco, mulheres devem procurar avaliação médica caso identifiquem alterações nas mamas. Entre os principais sinais de alerta estão:
- nódulo na mama
- caroço na axila
- alterações na pele com aspecto de casca de laranja
- inchaço ou feridas que não cicatrizam
- secreção pelo mamilo
- mudanças no formato da mama
Entrevista com o Dr. Ricardo Antunes
1 – Nos últimos anos, tem-se falado em um aumento nos casos de câncer de mama, inclusive entre mulheres mais jovens. Os dados confirmam esse crescimento ou estamos diante de diagnósticos mais precoces e maior notificação?
O câncer de mama é o tipo de câncer mais comum entre as mulheres brasileiras e também a principal causa de morte por câncer no país. Estima-se cerca de mais de 73 mil casos novos em 2026, com uma incidência mais frequente em mulheres acima dos 50 anos de idade, mas também ocorrendo em mulheres jovens abaixo dos 40 anos de idade, principalmente na região sul e sudeste do Brasil. Esses números reforçam a importância do diagnóstico precoce, onde as chances de cura são acima de 90%. A mamografia é o principal método de rastreamento populacional, recomendada pela Sociedade Brasileira de Cancerologia aos 40 anos de idade e sempre que possível associada ao exame de ultrassonografia, principalmente quando existe um histórico familiar de câncer de mama em mulheres mais jovens.
2 – Caso haja aumento real da incidência, quais fatores podem estar contribuindo para isso? Mudanças no estilo de vida, alimentação, sedentarismo, fatores ambientais ou reprodutivos influenciam?
Os fatores que contribuem para o aumento real da incidência do câncer são fatores ambientais e familiares. A genética, na realidade, não chega a expressar comprovadamente mais do que 15% dos casos. Então, a história familiar, a obesidade, o sedentarismo, o consumo excessivo de álcool, o tabagismo e fatores reprodutivos, como a primeira menstruação precoce e a gravidez tardia, são efetivamente fatores que aumentam a incidência do câncer de mama.
3 – O câncer de mama em mulheres jovens costuma ser mais agressivo? Há diferenças biológicas importantes em relação aos casos diagnosticados após os 50 anos?
O câncer de mama nas mulheres jovens, abaixo dos 40 anos de idade, representa apenas 4 a 10% dos casos no Brasil e é mais agressivo por questões da própria biologia tumoral. Eles estão mais relacionados ao diagnóstico tardio e, com isso, a um pior prognóstico global, com maior impacto emocional, sem dúvida. Na mulher acima dos 50 anos de idade, já costumam ser mais lentos, crescimento vagaroso, menos agressivos, geralmente relacionados ao hormônio, geralmente sujeitos a hormônio terapia, são de melhor prognóstico, sem dúvida.
4 – O rastreamento atual, com a recomendação de mamografia a partir dos 40 ou 50 anos (dependendo da diretriz), precisa ser revisto diante do número de casos em mulheres mais novas?
O rastreamento do câncer de mama é uma das estratégias mais importantes de saúde pública para reduzir a mortalidade e aumentar a detecção precoce, especialmente em mulheres sem sintomas. É uma forma efetiva de reduzir tratamentos agressivos, possibilitando cirurgias conservadoras e taxas de cura superiores a 90%. O que o Brasil precisa é da cobertura de rastreamento de exames de forma equitativa em toda a nossa extensão territorial e um acesso a esses exames de biópsia, de diagnóstico, quando necessário, de maneira célere, com tratamento adequado.
5 – Quais são hoje os principais sinais de alerta que muitas mulheres ainda ignoram, principalmente aquelas que acreditam estar fora da faixa de risco?
Reconhecer sinais de alerta permite a investigação precoce e o melhor prognóstico, observar a presença de nódulo mamário, observar algum caroço nas axilas, alterações na pele com aspecto de casca de laranja, a pele fica demaciada, inchada e muitas vezes é uma ferida que não cicatriza. Observar a secreção do mamilo e deformidades localizadas são sinais de alerta que merecem atenção.
6 – Quando o diagnóstico é feito em estágio inicial, quais são as chances reais de cura e como isso impacta na necessidade de tratamentos mais agressivos, como quimioterapia?
Diagnóstico precoce, em estágio inicial, as chances de cura são acima de 90%. Geralmente, não precisa haver quimioterapia, favorecendo melhor qualidade de vida e menor impacto psicossocial.
7 – Em relação às inovações terapêuticas, quais avanços mais transformaram o tratamento do câncer de mama nos últimos anos? Terapias-alvo, imunoterapia e testes genéticos já fazem parte da rotina no Brasil?
Nas últimas décadas, o câncer de mama passou a ser tratado de forma personalizada, através da evolução molecular, com testes genéticos em mulheres jovens e com histórico familiar de câncer. Além de testes que chamamos de assinatura genética para decisão de quimioterapia, onde já existe um arsenal de inovações terapêuticas para cada tipo individualizado. É o que chamamos de verdadeira oncologia personalizada. Com isso, com essa evolução, com essa personalização da oncologia mamária, existe um aumento significativo de sobrevida livre de doença e progressivamente menos toxicidade ao tratamento.
8 – Esses tratamentos mais modernos estão acessíveis tanto na rede privada quanto no SUS, ou ainda existe uma grande desigualdade no acesso?
Infelizmente, os tratamentos mais modernos são ainda altamente caros e boa parte ainda não está disponibilizada no sistema único de saúde. Esse é um grande desafio que o Brasil há de superar ao longo dos anos. É assim que esperamos.
9 – Sobre as cirurgias, a técnica que preserva o mamilo durante a retirada da mama tem ganhado destaque. Em quais casos ela é segura e quais benefícios traz para a autoestima e recuperação emocional da paciente?
A cirurgia mamária evoluiu de procedimentos mutiladores para abordagem oncológica com excelente resultado estético e funcional. É o que chamamos de oncoplastia mamária. Hoje, a mastectomia, por exemplo, poupadora de pele e da aréola e do mamilo, quando devidamente indicada, remove a glândula mamária em praticamente toda a sua totalidade, permitindo um melhor resultado estético com reconstruções imediatas com próteses variadas, próteses avançadas. Esse método, quando indicado, mantém o contorno natural da mama, a preservação da imagem corporal da mulher e, sem dúvida, traz maior satisfação psicossocial e melhor qualidade de vida para a paciente.
10 – Qual é a principal mensagem que o senhor gostaria de reforçar para mulheres de todas as idades sobre prevenção, diagnóstico precoce e a importância do acompanhamento médico regular?
No Dia Internacional da Mulher, celebramos a força, a coragem e a resiliência das mulheres, seja na família, na comunidade, no trabalho ou na busca da própria saúde plena. O impacto do câncer de mama vai muito além dos números. Ele toca vidas, famílias e histórias individuais. Por isso, reforçamos que a prevenção e o diagnóstico precoce continuam sendo as estratégias mais eficazes para reduzir o sofrimento e salvar vidas. Essa é a melhor e maior mensagem nesse Dia Internacional da Mulher.
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