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O que você prefere: notícias “boas” ou notícias “ruins”?

Por que as matérias jornalísticas que provocam medo, horror e desespero são mais lidas do que as que trazem conteúdos informativos, muitas vezes de interesse público? Entrevistamos o psicanalista e pós graduado em neurociência, dr. Gregor Osipoff, para saber a resposta. Acompanhe a matéria exclusiva, produzida pelo jornal Giro S/A
Muitas vezes, uma notícia “ruim” desperta medo nas pessoas e faz com que elas se sintam mais vivas, como se fosse um “despertar para a vida” (Foto: Divulgação / Reprodução Freepik)

GIRO/AS. Ao fazermos a nossa retrospectiva do ano de 2020, notamos que as matérias que divulgavam mortes, aparecimento de animais perigosos e outras coisas que dão medo, eram as que tinham mais likes e comentários. A pergunta que ficamos nos fazendo é: por que as pessoas leem bem mais conteúdos que trazem esse tipo de temática?

GREGOR OSIPOFF. Acho que, em primeiro lugar, este é um fenômeno em todas as culturas, que podemos remontar a lugares e tempos imemoriais, onde as pessoas eram julgadas em praças públicas e o povo ia lá assistir (como um espetáculo de final de semana ou mesmo um teatro da vida real). Observamos isso também na literatura, em gêneros como o terror, por exemplo. Mas imagino que esta curiosidade em ler essas notícias é de ficar em alerta sobre possíveis coisas ruins que podem vir a acontecer, e que devemos ficar antenados. Podemos até falar das fábulas que eram contadas às crianças, como uma forma de educar e ao mesmo tempo criar um espírito de autopreservação – como fazia o grande escritor La Fontaine. Agora, o fenômeno dos likes, não quer dizer necessariamente que houve envolvimento direto. Nós humanos sempre tivemos esta admiração pelo fantástico. Somos criativos e precisamos muitas vezes destes tipos de emoção, até para justificar nossas próprias culpas.

GIRO S/A. Qual o mecanismo que faz com que as notícias “ruins” sejam mais fascinantes para o público do que uma nota com conteúdo informativo, muitas vezes de interesse público, por exemplo?

GREGOR OSIPOFF. Muitas vezes, uma notícia “ruim” desperta medo nas pessoas e faz com que elas se sintam mais vivas, como se fosse um “despertar para a vida”. As notícias ruins nos lembram que estamos vivos e da importância de isso se perpetuar. Também tem o fato de que, em uma notícia do tipo “pinga-sangue”, a associação com a morte, o medo e a culpa é realizada imediatamente pelo leitor. Já, ao contrário, as “boas” notícias, que trazem conteúdos informativos, ou outros de interesse público, fazem com que o leitor tenha o trabalho de entender melhor e avaliar mais profundamente a matéria.

GIRO S/A. Atualmente, com o incremento de sites de notícias que podem ser compartilhados, há bem mais interação entre editores e leitores, e isso faz com que os leitores tenham um espaço maior para extravasar suas emoções, tanto boas quanto más, digamos assim. Podemos concluir com isso que a parte emocional do ser humano grita mais alto quando algo o perturba?

GREGOR OSIPOFF. Podemos concluir que a tecnologia mudou e os meios de informação também, mas o ser humano é o mesmo em sua estrutura e em sua mente. Só apareceram novas formas de interação e, como isso, a liberdade de compartilhar aquilo que ele muitas vezes nem leu e tem a possibilidade de parecer uma pessoa antenada nas coisas do cotidiano. Os “demoninhos” das pessoas afloram no contexto das redes, pela sensação de anonimato e também pelo empoderamento. As pessoas podem falar aquilo que sentem, sem cobranças… e as redes podem ser uma forma de manifestação do próprio ego. Elas também podem desabafar algo para quem quiser ouvir, algo como o “pronto, falei”, mas esta fala passa pela notícia, que justifica a forma que este ser pensa. A parte animalesca sempre vai aflorar nas pessoas, faz parte de nossa estrutura básica. Mas fica a cargo do indivíduo alimentar as coisas boas ou ruins que ele pensa e manifesta socialmente.

GIRO S/A. Claro que, desde os primórdios, o ser humano tem melhorado muito, mas ainda guarda resquícios de bestialidade, maldade, que fica cada vez mais fácil de enxergar. O senhor acredita que a maior exposição das falas, via rede sociais, fará com que as pessoas se conscientizem mais de seus atos falhos, ou não?

GREGOR OSIPOFF. Precisamos melhor conceituar o que é melhorar muito! Observamos que as melhorias que antigamente achávamos que seria o avanço da sociedade rumo a um desenvolvimento, enxergamos que foi, em muitos casos, um desastre provocado por nós. Acho que as redes sociais são fundamentais para o desenvolvimento da sociedade. Não podemos mais desassociar a Internet do convívio da humanidade, mas temos que aprender a digerir o que está sendo proposto, escolher entre fake news e conteúdos de relevância para nossas vidas. Precisamos nos alfabetizar neste novo mundo, que não tem nem 30 anos, mas que já mexeu com todas as bases sociais do mundo todo. Outra coisa, vejo que as redes sociais fazem com que as pessoas leiam mais, mesmo que em pequenas quantidades, mas melhorou muito este índice pela população. No passado, podemos dizer que este índice era quase zero…Não podemos esquecer que o Brasil tinha uma população de analfabetos de quase 20% na década de 1980. E com esta exposição continuada a todo tipo de informação, com certeza vai aumentar o senso crítico, mas não vai proporcionalmente aumentar a cultura. Mas fará pensar, que já é um grande avanço para toda sociedade. As manifestações nas redes sociais, falam muito de como nós pensamos de verdade.

GIRO S/A. Quando melhoraremos como sociedade, em sua opinião?

GREGOR OSIPOFF. Difícil falar no melhoramento da sociedade, vivendo nela. Vai depender do conceito de melhoria. Podemos ir para o foco da melhoria das relações humanas, vendo pelo lado da empatia e amor ao próximo. Podemos ver também pelo viés das boas ações, para si, para a família e para a sociedade. Como podemos ser melhores se, muitas vezes, não conseguimos melhorar comportamentos básicos que nos assombram. Por isso que a ajuda de profissionais da área pode dar um novo colorido na vida sem cor das pessoas. Para que elas possam curar suas dores internas, ressignificando acontecimentos, problemas familiares, traumas e seguir em frente com o objetivo de transformar seu mundo e o mundo de outras pessoas. Partindo de cada um, e de forma nuclear, consegue-se “contaminar” toda a sociedade com amor, respeito e uma visão de coletividade que possa dar sustentáculo para um novo mundo moderno e que abarque todas as possibilidades culturais e gostos pessoais.

Entrevistamos o psicanalista e pós graduado em neurociência, dr. Gregor Osipoff (Foto: Divulgação / Reprodução assessoria)