Cineasta José Mujica morre aos 83 anos

Entrevista com o cineasta foi publicada pelo Giro S/A em novembro de 2007 

Morreu nesta quarta-feira, 19 de fevereiro, o cineasta José Mujica Marins, mais conhecido como Zé do Caixão, morreu aos 83 anos, em decorrência de uma broncopneumonia em São Paulo. Considerado o maior diretor do cinema brasileiro e pai do terror nacional, Mujica estava internado no hospital Santa Maggliore e sua morte foi confirmada por sua filha a atriz Liz Marins.  

José Mujica Marins durante entrevista à repórter do Giro S/A, Andressa Besseler, em novembro de 2007 (Foto: Rodrigo Petterson – Giro S/A)

Leia abaixo a entrevista que o cineasta concedeu em 2007 e que foi publicada na edição de lançamento do Giro S/A. Na ocasião o ícone do cinema cult nacional comemorava 50 anos de carreira e anunciava sua aposentadoria.

Mojica comemora 50 anos de carreira e aposenta
Por Andressa Besseler
23 de novembro de 2007

A mil por hora. A expressão popular retrata bem o momento atual do ator e cineasta paulistano José Mojica Marins, criador de uns dos personagens mais emblemáticos e sinistros do cinema: o Zé do Caixão, que aterrorizou por 44 anos. Às vésperas de completar 72 anos, Mojica está às voltas com as filmagens do longa “A Encarnação do Demônio”, que finaliza a saga do personagem Zé do Caixão, participa da retrospectiva em homenagem aos 50 anos de carreira, no Centro Cultural Banco do Brasil e na Cinemateca Brasileira que pode ser vista até domingo, 25, e ainda planeja a inauguração de Museu Zé do Caixão, para o segundo semestre de 2008. Em meio a uma concorridíssima agenda de entrevistas, encontros com produtores internacionais que pretendem exibir seu mais novo filme, e um cigarro atrás do outro, o cineasta Mojica recebeu a reportagem.

Como surgiu o cinema na sua vida?

Zé do Caixão – Aos 4 anos de idade, umprojetista amigo dos meus pais, me levava para assistir sessões sobre doenças venéreas. Depois vieram os filmes do Chaplin, uma pessoaangustiante. Sempre acompanhei e me interessei por históriastrágicas esobrenaturais. Quando fiz 10 anos, pedi uma máquina de 8 mm e fiz meu primeiro filme caseiro “O Grito Final”, assistido por mais de mil pessoas, inclusive um padre, que me chamou de esquizofrênico.

E a inspiração para criar o Zé do Caixão?

ZC – Tinha amizade com um vizinho feirante. Quando ele morreu fiquei me questionando sobre o que aconteceria depois que a gente morre, me interessei por ocultismo, aquilo ficou dentro de mim. Em 1953,fundeiaCompanhiaCinematográfica Atlas, produtora que realizou meu primeiro filme”A Mágica do Mágico.” Em 1962, no filme”À Meia-Noite Levarei Sua Alma”, eu assumo de vez o personagem Zé do Caixão. Fui Zé do Caixão em 41 produções.

Você é cult, Zé?

ZC – Pois é, deixei de ser considerado trash e me tornei cult. Estou negociando com mais de 30 países este meu último filme A Encarnação do Demônio, que encerra a trilogia do terror iniciado por mim com À Meia-noite Levarei sua Alma, de 1964. O filme mostra bem este meu momento porque está sendo finalizada pela produtora Olhos de Cão, de Paulo Sacramento, um dos melhores montadores brasileiros da atualidade, e tem distribuição garantida pela Fox Filmes. Eles investiram R$ 70 milhões de reais e eu tive uma equipe de 70 produtores e mais de mil figurantes participando. Eu já fiz mais de 160 películas e 200 produções para a TV e o meu trabalho mais caro foi Perversão, com investimento de R$ 120 mil e 12 pessoas, entre elenco e parte técnica. Por aí você percebe como a coisa está.

Você acha que teve o respeito que merecia?

Eu sou considerado ícone pop, lá fora. Mas aqui dentro… acho muito boa esta oportunidade que estou tendo de acompanhar em vida esta homenagem àminhatrajetória.Aretrospectiva dos 50 anos de carreira, o lançamento do livro, a finalização da trilogia “A Praga”, feito em Super -8,em1980, e apenas agora sendo visto pelo público. Tudo isso é importante porque no Brasilsó realizam ashomenagens depois que a pessoa morre.

E essa aposentadoria anunciada, de fato ela acontece?

ZC – Vou realizar o lançamento do filme “A Encarnação do Demônio” no dia do meu aniversário, dia 13 de março de 2008 e depois não faço mais cinema. Agora,vou fazer outras coisas. Estréio no Canal Brasil em abril de 2008 com “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”, programa produzido por André Barcinski com reportagens e entrevistas bizarras (entre os entrevistados Alexandre Herchocovitch e Mãe Dinah). No segundo semestre, vou inaugurar o Museu Zé do Caixão, na Galeria do Rock, no Centro de São Paulo. O espaço terá acervo com meus figurinos, acessórios, filmes e livros, mas também vai vender camisetas, bonés, roupas e cds, entre outros objetos.

Galeria de fotos
por Rodrigo Petterson