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Profissionais 50+ impulsionam o mercado de trabalho na região

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Profissionais 50+ estão atuando em empresas de tecnologia, fintechs e serviços financeiros (Divulgação/Freepik)

Após 20 anos afastada do mercado para cuidar da família, Maria Cecília Giacomo Pavanezi, de 53 anos, decidiu recomeçar. “Me divorciei e percebi que precisava voltar a trabalhar. No começo me senti perdida, mas fui me atualizando na área de comunicação e, aos poucos, consegui me recolocar”, conta a profissional.

O caso de Maria Cecília não é isolado. As consultorias de Recursos Humanos têm notado um aumento significativo na demanda por profissionais 50+. “Os dados nacionais reforçam o que vemos na prática: entre 2023 e 2024, as contratações formais de profissionais com mais de 50 anos cresceram cerca de 8,8%, representando quase 700 mil novos postos de trabalho — um ritmo três vezes maior que o dos mais jovens”, afirma Patrícia Villa Nova, CEO da Villa Nova Consultoria e fundadora do Movimento Conexão das Mulheres.

Para Patrícia, as empresas estão reconhecendo o valor da inteligência experiencial. “Depois de anos supervalorizando apenas a inovação tecnológica, o mercado redescobriu que problemas complexos exigem repertório. O profissional 50+ traz não apenas conhecimento técnico, mas o que chamamos de sabedoria contextual: a capacidade de prever consequências, navegar crises, tomar decisões com maturidade e manter a calma sob pressão”, ressalta.

A especialista afirma que no eixo Barueri–Santana de Parnaíba – especialmente nas empresas de tecnologia, fintechs e serviços financeiros instaladas ao longo da Marginal Pinheiros – setores que antes eram redutos quase exclusivos de profissionais jovens agora buscam talentos 50+ para funções estratégicas: gestão de crises, governança de projetos, relações com investidores, compliance e liderança de times híbridos. “Nesses ambientes de alta inovação, o profissional maduro atua como uma verdadeira “âncora de experiência”, trazendo equilíbrio emocional, visão sistêmica e capacidade de tomada de decisão sob pressão”, diz ela.

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Entre 2023 e 2024, as contratações formais de profissionais com mais de 50 anos cresceram cerca de 8,8 (Divulgação/Freepik)

Profissional 50+: sabedoria contextual

Confira, abaixo, a entrevista completa com a especialista Patrícia Villa Nova:

Jornal Giro – A busca por profissionais 50+ pelas empresas aumentou no Brasil. Quais os motivos?

Patrícia Villa Nova – Sim, temos observado um aumento significativo na demanda por profissionais 50+, e isso se deve a uma convergência de fatores estratégicos que acompanho tanto na Villa Nova Consultoria quanto ao longo dos meus mais de 25 anos em Recursos Humanos.

Primeiro, as empresas estão finalmente reconhecendo o valor da inteligência experiencial. Depois de anos supervalorizando apenas a inovação tecnológica, o mercado redescobriu que problemas complexos exigem repertório, algo que só se constrói com décadas de vivência profissional. O profissional 50+ traz não apenas conhecimento técnico, mas o que chamamos de sabedoria contextual: a capacidade de prever consequências, navegar crises, tomar decisões com maturidade e manter a calma sob pressão.

Segundo, há um entendimento crescente sobre a estabilidade demográfica e emocional que esses profissionais oferecem. Em um mercado volátil, onde o turnover custa caro, especialmente em setores como comércio e serviços, empresas passaram a valorizar perfis com projetos de vida mais consolidados, menor mobilidade e maior comprometimento com resultados de longo prazo.

Terceiro, e mais recente, está a influência das agendas de ESG e diversidade etária. Grandes corporações estão sendo cobradas por investidores, consumidores e pela sociedade para construírem equipes multigeracionais. A diversidade de idade deixou de ser um diferencial e passou a ser uma métrica de governança corporativa.

Na prática, as empresas começaram a enxergar o profissional 50+ como um ativo estratégico: alguém que combina experiência, estabilidade emocional, visão de longo prazo e menor rotatividade. Além disso, o envelhecimento da população economicamente ativa e a ampliação do debate sobre etarismo têm pressionado positivamente o mercado a rever preconceitos e abrir espaço para talentos maduros.

Jornal Giro – Na Região Metropolitana Oeste da Grande SP, a contratação de profissionais 50+ também aumentou?

Patrícia Villa Novas – Sim, e de forma bastante evidente. Tenho observado um movimento consistente de abertura para profissionais 50+, mais forte hoje do que há cinco ou dez anos.

A Região Oeste Metropolitana tem uma característica muito particular: ela reúne polos tecnológicos, centros corporativos, hubs de serviços, indústrias e grandes operações logísticas. Essa diversidade cria um ambiente onde a maturidade profissional passou a ser vista como vantagem competitiva.

No eixo Barueri–Santana de Parnaíba, especialmente nas empresas de tecnologia, fintechs e serviços financeiros instaladas ao longo da Marginal Pinheiros, vemos um fenômeno interessante: setores que antes eram redutos quase exclusivos de profissionais jovens agora buscam talentos 50+ para funções estratégicas: gestão de crises, governança de projetos, relações com investidores, compliance e liderança de times híbridos.
Nesses ambientes de alta inovação, o profissional maduro atua como uma verdadeira “âncora de experiência”, trazendo equilíbrio emocional, visão sistêmica e capacidade de tomada de decisão sob pressão.

Embora ainda não seja um movimento massivo, é nítido que a idade deixou de ser uma barreira explícita em muitas vagas. Em alguns casos, a maturidade é até desejada, especialmente em posições que exigem relacionamento, confiança, tomada de decisão, gestão de pessoas e contato direto com o público.

Esse avanço ainda convive com o etarismo, claro, ele não desapareceu. Mas o que vemos hoje é uma mudança real de mentalidade, impulsionada por necessidades de negócio, pela busca por estabilidade e pela valorização da diversidade etária como parte das agendas de ESG e governança corporativa.

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As empresas estão finalmente reconhecendo o valor da inteligência experiencial (Divulgação/Freepik)

Jornal Giro – Quais os setores que têm contratado mais na região profissionais 50+? Qual o nível de escolaridade predominante?

Patrícia Villa Novas – Na Região Oeste Metropolitana de São Paulo, três setores têm se destacado na contratação de profissionais 50+:

1. Saúde e Bem-estar
Hospitais, clínicas e operadoras valorizam profissionais maduros para gestão de crises, atendimento humanizado e relações institucionais.
Escolaridade predominante: pós-graduação, MBAs e especializações.

2. Educação Corporativa e Desenvolvimento Organizacional
Com o crescimento de universidades corporativas e programas de treinamento, há demanda por profissionais experientes para mentoria, cultura e liderança.
Escolaridade: variada, mas a experiência prática pesa mais que títulos.

3. Compliance, Governança e Regulação
Setores regulados buscam profissionais que entendem a evolução das normas e possuem visão sistêmica.
Escolaridade: Direito, Administração, Engenharia + especializações.

Além desses segmentos, setores tradicionais da região continuam absorvendo muitos profissionais 50+:

  • Comércio e serviços (varejo, farmácias, bancos, atendimento)
  • Logística e operações (CDs, transporte, armazenagem)
  • Serviços corporativos (RH, financeiro, facilities, atendimento B2B)

Quanto ao nível de escolaridade, há dois perfis predominantes:

  • Ensino médio completo + forte experiência prática (comércio, serviços e operações)
  • Ensino superior + pós-graduação (gestão, RH, contabilidade, pedagogia, psicologia, direito, engenharia)

Jornal Giro – Ainda há preconceito em contratar pessoas mais experientes? Caso sim, quais os motivos?

Patrícia Villa Novas – Infelizmente sim, ainda existe preconceito — embora ele esteja diminuindo e se tornando mais sutil. Na prática, percebemos que muitos profissionais maduros não avançam nos processos seletivos mesmo sendo altamente qualificados.

Os principais motivos são:

1. O mito da resistência à tecnologia: ainda persiste a crença de que profissionais 50+ têm dificuldade de adaptação digital.
Na prática, vejo o contrário: são justamente eles que conseguem diferenciar modismos de inovações reais e aplicar tecnologia com visão estratégica.

2. A falácia do “custo elevado”: muitas empresas presumem que profissionais mais experientes exigem salários incompatíveis.
O que observamos é uma abertura crescente para modelos flexíveis, remuneração por valor entregue e acordos que equilibram experiência e orçamento.

3. A cultura da “juventização”: algumas startups e empresas de tecnologia ainda associam inovação exclusivamente à juventude, criando ambientes etariamente homogêneos.
Isso vem mudando à medida que essas empresas amadurecem e enfrentam desafios de escala que exigem repertório e visão sistêmica.

4. Medo de conflito geracional: há receio de como será a convivência entre líderes jovens e profissionais mais experientes.
Esse medo, muitas vezes infundado, impede a formação de equipes multigeracionais mais fortes e equilibradas.

5. O recorte de gênero — um desafio ainda maior para mulheres 50+
Mulheres maduras enfrentam uma dupla barreira: etária e de gênero. Apesar disso, as empresas que superam esses vieses colhem resultados claros: times mais maduros, entregas mais consistentes, menor rotatividade e ambientes mais saudáveis.

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Patrícia Villa Nova, CEO da Villa Nova Consultoria e fundadora do Movimento Conexão das Mulheres (Divulgação/Arquivo pessoal)

Não é idoso, é NOLT

Você já ouviu falar em Not Old, Living Technology (NOLT)? O conceito reflete uma mudança importante no perfil dos profissionais 60+, que já não se veem mais no rótulo de “idosos”. Cada vez mais ativos, eles voltam a estudar, se atualizam em tecnologia, cuidam da saúde e permanecem produtivos — seja empreendendo, seja mudando de carreira ou retornando ao mercado de trabalho com novas habilidades e propósito. “O movimento começou no LinkedIn, onde defende-se que as pessoas têm que voltar ao mercado de trabalho com 60 anos”, explica o mentor e palestrante Moses Fliter, idealizador da imersão IA Sem Mistério 40+.

Segundo Fliter, o debate sobre a permanência de profissionais mais velhos no mercado ganhou força justamente por uma dificuldade crescente das empresas em lidar com as gerações mais jovens. Ele cita discussões recorrentes no LinkedIn defendendo que pessoas com 60 anos ou mais continuem ativas no mercado de trabalho. “Hoje, muitas empresas enfrentam problemas com profissionais de 25, 27 anos, que demonstram pouca paciência e baixa tolerância às rotinas do trabalho. Quando não gostam, simplesmente vão embora”, afirma ele.

Fliter também cita o avanço do grupo chamado de “geração nem-nem” — jovens que, mesmo aos 30 anos, não trabalham nem estudam e seguem morando com os pais — um cenário que, segundo ele, acende um alerta para o futuro da força de trabalho no País.

IA Sem Mistério 40+ – a imersão tem como propósito desmistificar o uso da inteligência artificial e mostrar que a tecnologia pode — e deve — ser acessível, simples e poderosa para todas as gerações. A proposta é provar que a IA não é um bicho de sete cabeças, mas uma aliada estratégica no dia a dia profissional.

O foco está, especialmente, nos profissionais que estão retornando ao mercado de trabalho ou se reinventando, e trazem uma bagagem rica de conhecimento e experiência. Compreender e saber usar a inteligência artificial é hoje um passo essencial para potencializar esse conteúdo e se manter competitivo, relevante e preparado para as novas exigências do mercado.

A IA pode transformar vidas, negócios, carreiras e até a saúde mental. “A tecnologia é uma aliada, não uma ameaça. O segredo está em usá-la com propósito e visão de futuro”, reforça o mentor e palestrante.

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