Por Leandro Monteiro – Colunista do Giro
A Inteligência Artificial ocupa hoje o centro do debate econômico, tecnológico e até geopolítico. A cada semana surgem novos avanços, promessas ousadas e investimentos bilionários. Ao mesmo tempo, cresce a pergunta: estamos diante de uma bolha inflada por expectativas irreais ou do início da transformação mais profunda da história moderna?
Esse dilema não é novo. As mesmas dúvidas acompanharam a eletrificação no século XIX, a popularização dos computadores nos anos 1980 e a internet nos anos 1990. Todos esses movimentos foram recebidos com ceticismo, todos geraram bolhas especulativas, mas nenhum deixou de redesenhar o mundo.

Pesquisadores do MIT apontam que 95% dos projetos-piloto de IA fracassam em gerar retorno financeiro consistente. Para muitos, esse é o sinal de uma bolha prestes a estourar. Mas o verdadeiro problema não está na tecnologia em si, e sim dentro das próprias empresas. O maior obstáculo é o volume de dados não estruturados. Corporações acumulam montanhas de relatórios em PDF, planilhas dispersas, e-mails, contratos escaneados e sistemas legados que não se comunicam. Tentar escalar IA nesse cenário é praticamente impossível.
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A verdade é simples: só se escala IA com dados estruturados. E, para chegar a esse ponto, muitas companhias terão de encarar uma verdade incômoda — seus mainframes e sistemas legados de décadas se tornaram um entrave. A maioria das grandes organizações ainda opera em arquiteturas ultrapassadas que funcionam como silos de informação. Sem modernizar esses sistemas, migrar processos e integrar dados em tempo real, a promessa da IA continuará sendo apenas isso: promessa. A infraestrutura é a base invisível de toda revolução. Sem ela, o edifício desmorona.
É aqui que entra o papel do C-Level. Os verdadeiros protagonistas da adoção de IA serão CEOs, CFOs e COOs — e não apenas CIOs. A agenda é clara: aumentar ROI, reduzir custos, ampliar margens e acelerar a tomada de decisão. Quando a IA é tratada como iniciativa técnica, ela emperra. Quando é abraçada como estratégia de negócio, ela transforma.
Há, no entanto, riscos a serem enfrentados. O primeiro é a guerra predatória de preços entre consultorias e fornecedores de IA. Na corrida por contratos, muitos reduzem preços a níveis insustentáveis, comprometem a qualidade e criam expectativas irreais nos clientes. O resultado? A IA corre o risco de virar commodity, esvaziada de seu valor estratégico. O segundo risco é a instabilidade estratégica dentro das corporações. Pressionadas por conselhos e acionistas, muitas empresas mudam de direção a cada trimestre — adotam uma plataforma e logo a abandonam; criam times de inovação e depois os desmantelam. Essa oscilação destrói confiança, desperdiça recursos e impede avanços consistentes.
O caminho é claro. Empresas que oferecem soluções de IA precisam ser enxutas, ágeis e conectadas diretamente ao C-Level. O sucesso não está em vender mais uma “caixa preta de tecnologia”, mas em provar como a IA reduz desperdícios nas cadeias de suprimento, automatiza decisões financeiras, personaliza jornadas do cliente e gera vantagem competitiva sustentável. A pergunta que todo executivo vai fazer é simples: para cada real investido, quanto retorna em eficiência, produtividade e crescimento?
Mas a questão vai além da tecnologia. Outro gargalo está no perfil dos times. Muitas empresas acreditam que a adoção de IA depende de contratar mais especialistas de TI ou cientistas de dados. O que realmente falta são profissionais que entendam de negócio. As organizações que vão prosperar na era da IA não serão as que tiverem os maiores times técnicos, mas aquelas lideradas por executivos capazes de conectar tecnologia à estratégia corporativa. IA é decisão de negócio, não de código.

No Brasil e na América Latina, essa discussão é ainda mais urgente. A região enfrenta obstáculos históricos — desigualdade de acesso à tecnologia, falta de capital de risco, escassez de profissionais qualificados e burocracias que atrasam a modernização. Mas também carrega oportunidades únicas. Temos mercados jovens, conectados e ávidos por soluções que resolvam problemas reais. A penetração massiva de smartphones e redes sociais cria terreno fértil para a adoção rápida em escala.
O desafio agora é transformar hype em impacto real. Não basta rodar pilotos ou anunciar parcerias com grandes fornecedores globais. É preciso tratar a IA como pilar estratégico do negócio, investir na modernização de sistemas, capacitar lideranças que entendam de negócios e alinhar toda a organização em torno de objetivos claros: ROI, redução de custos e competitividade sustentável.
A mensagem é direta:
- IA só escala com dados estruturados — e isso exige modernização do mainframe.
- IA não é sobre tecnologia; é sobre decisões de negócio.
- As empresas que investirem mais em líderes de negócio do que apenas em técnicos sairão na frente.
Estamos diante de um divisor de águas. Assim como a internet moldou a economia do século XXI, a Inteligência Artificial moldará a do século XXII. Cabe ao Brasil e à América Latina decidir se serão meros espectadores da próxima grande transformação — ou protagonistas de um futuro que já está sendo escrito.

Leandro Monteiro é executivo internacional com MBA em Varejo (FIA) e especialização em Marketing Engineer and Digital pela Université Grenoble Alpes. Atua como Diretor Executivo da AAXIS na América Latina e colunista do Giro SA, escrevendo sobre inovação, negócios e tecnologia
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