De acordo com estimativa do Instituto Nacional de Câncer (Inca), são esperados 66.280 novos casos de câncer de mama somente neste ano – o que representa 29,7% do total de casos de câncer no Brasil em 2020. O valor corresponde a um número estimado de 61,61 casos novos a cada 100 mil mulheres.
A importância dos exames preventivos
Em recente entrevista ao historiador e professor doutor Marco Antonio Villa, no canal Blog do Villa, no YouTube, o médico oncologista Fernando Maluf destacou que um estudo feito na Inglaterra alertou para o aumento de 20% a 60% dos casos de câncer nos próximos meses, uma vez que, devido à pandemia, muitas mulheres deixaram de fazer os exames periódicos.
Levantamento realizado pelo Ibope, a pedido da empresa farmacêutica Pfizer, aponta que 62% das mulheres pararam de ir ao ginecologista ou ao mastologista durante a pandemia no Brasil, que iniciou em março deste ano. Esse número é ainda maior, chegando a 73% entre as que têm 60 anos ou mais e fazem parte do grupo de risco.
A justificativa é que estas mulheres estão esperando o fim da pandemia para retomar suas consultas. Esses dados fazem parte da pesquisa “Câncer de mama: o cuidado com a saúde durante a quarentena”. Participaram 1.400 mulheres, a partir dos 20 anos de idade, das classes A, B e C e residentes na cidade de São Paulo, no Distrito Federal e nas regiões metropolitanas de Belém, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Recife.
“Só tinha duas opções: desistir ou lutar”
Pandemia do covid-19 era um assunto ainda impensável quando a confeiteira Andrea Pereira, 43, que reside no Jardim das Flores em Osasco foi fazer seu exame de preventivo de rotina. Em meados de 2014, poucos dias antes de ter realizado o autoexame em casa, lembrou de seu nódulo, que há anos a acompanhava. “Os médicos sempre diziam que era um nódulo de gordura, então isso nunca me preocupou seriamente. No entanto, ao realizar o toque, aquela presença me incomodou. Fui ao médico que me pediu um ultrassom para investigar melhor. Com o resultado em mãos, o profissional sugeriu uma mamografia com urgência”, relata.
No retorno da consulta, o médico analisou os exames e solicitou uma biópsia. Embora tivesse que certamente não era nada grave, o diagnóstico foi outro: câncer de mama. “Quando recebi a notícia, tive que parar e respirar um pouco. O coração palpitava, as mãos tremiam. Por instantes minha vida passou pela minha cabeça. Claro que pensei na morte. Mas ao mesmo tempo, não iria dar o braço a torcer para a doença. Você só tem duas opções, ou se entrega ou luta, resolvi lutar”, diz à reportagem.
Andréa revela que outro momento difícil de lidar foi contar para a família. Todos choraram ao ter ciência da dura notícia. Pouco tempo depois foi dado início ao tratamento, seguida do corte do cabelo, uma vez que a forte medicação, a queda dos fios seria inevitável. “É uma das transições mais complexas, pois você deixa de ser quem você é. Sua imagem se transforma de maneira abrupta. É bem traumatizante. Com o tempo vamos nos adaptando”, diz.
Antes mesmo de iniciar a medicamentação com a quimioterapia, os médicos indicaram a intervenção cirúrgica. Andréa precisou fazer novos exames para realizar o procedimento chamado de cirurgia conservadora da mama, procedimento para retirada do tumor preservando a maior parte possível da mama. “Com o procedimento, tive que tirar o quadrante e esvaziar a axila. Ao todo, foram retirados 21 nódulos”, relembra.
Superação diária
A cirurgia foi mais uma entre tantas outras etapas do tratamento. A quimioterapia pode ser considerada uma das fases mais desafiadoras. “O organismo reage a tanta química, que passamos muito mal. É horrível. Creio que é o momento em que nossa fragilidade e força são colocadas à prova”, salienta. E as dificuldades não param por aí. Durante essa fase, Andréa ressalta que há também o olhar de julgamento das pessoas. “Elas olham como se você já estivesse condenada. Se afastam, te tratam com indiferença ou não sabem como lidar com a situação. Existe muito muito preconceito e eu sofri na pele”.
Por outro lado, existe muito apoio também. A confeiteira relata que um dos momentos mais memoráveis foi quando sua mãe, suas irmãs e uma amiga se reuniram para fazer uma surpresa. “Todas estavam usando lenço na cabeça. Foi uma homenagem muito linda que me fez perceber que teria ajuda durante a minha jornada. Me senti acolhida”.
Depois de seis anos intensos de luta contra a doença, Andrea sabe que ainda não é hora de comemorar. Entre as conquistas, afirma estar feliz após ter emagrecido 27 quilos, além de ver seus cabelos crescendo. “Ainda não venci. Faltam alguns anos para me sentir completamente livre. Estou firme para enfrentar e resistir, pois amo a vida. Vou seguir em frente”, finaliza.








