Especialista em Oz: a reportagem do Jornal GIRO entrevistou o osasquense e estudante de doutorado pela Unicamp, Lucas Nascimento, cuja dissertação de Mestrado teve como tema o município
Nascido em Osasco, Lucas Antonio dos Anjos Nascimento, 28, viveu até os 15 anos no bairro Jardim D’Abril e se mudou com a família para o Industrial Autonomistas, nos arredores da Vila Yara e do Parque Continetal. Antes de ingressar na faculdade, fez parte da 1ª turma a se formar em Química pela Etec da Vila dos Remédios.
Lucas passou no vestibular e começou a estudar Química USP. Na universidade, percebeu que o curso não fazia mais sentido e deixou a graduação antes de completar dois anos, pois desejava estudar assuntos relacionados às áreas sociais, mobilizado principalmente pelas manifestações que tomaram conta do Brasil, na época, contra o aumento do valor do transporte público. Pouco tempo depois, prestou vestibular na Unicamp, em Campinas, e foi aprovado.
Formou-se Sociólogo, e Cientista Político, mestre em Antropologia com ênfase em Antropologia Urbana e, atualmente, é aluno do curso de doutorado em Ciências Sociais, com ênfase em Estudos Sobre Cidades — todas na Unicamp. Hoje, atua como pesquisador bolsista.
Expert em Osasco
Por acumular tantas informações sobre a cidade, o osasquense ficou conhecido entre os amigos como “Especialista em Osasco”. Gostou tanto do título, que resolveu adotá-lo em sua conta oficial no Twitter.
Foi no Mestrado pela Unicamp que iniciou uma profunda pesquisa de campo sobre a cidade, com foco no Industrial Autonomistas. Lucas deu início aos estudos para sua dissertação de mestrado, intitulado: “Tudo prédio? Etnografia urbana do espaço pós industrial de Osasco”, sob orientação da professora Taniele Cristina Rui.

Nova centralidade urbana em Osasco
“Neste trabalho, narro a história de Osasco e como a cidade passou de industrial para uma cidade que se tornou cada vez mais atrativa para o mercado imobiliário. Em 2016, li uma reportagem publicada no jornal Folha de S. Paulo que apontou: ‘o bairro, antes tomado por indústrias, agora é de alto-padrão’. Estava atento a notícias como essas, principalmente as que tratavam do Industrial Autonomistas, bairro onde minha família mora desde 2009. Chamou minha atenção o número de apartamentos: mais de 13 mil entregues num intervalo de três anos. Cerca de 4.500 apartamentos ao ano. Comecei a refletir sobre quem estava se mudando para esses prédios e entendi que, além das famílias osasquenses, que se mudam de outros bairros para essa área da cidade; há também os paulistanos, interessados em um empreendimento de alto-padrão mais barato do que em São Paulo, com localização estratégica, pela proximidade das marginais Pinheiros e Tietê. Quem saiu vitorioso foi o mercado imobiliário, que passou a ocupar um lugar que era ‘tomado por indústrias’. Passei a estudar todo esse movimento, que estava em transformação, em busca de possíveis respostas para questionamentos como: o que acontece com uma cidade quando suas forças produtivas industriais dão lugar à shoppings, condomínios e supermercados de redes internacionais? Quais processos e agentes estão envolvidos nessa transformação?”.
Nostalgia
“Tenho um sentimento muito forte pela cidade, bem como com a boa relação que criamos com o pessoal da feira, do mercadinho de bairro, da padaria da esquina. Em Osasco, sobretudo nos bairros mais afastados do Centro, ainda existe essa relação que eu chamaria de um pouco mais intimista e calorosa por parte do morador com a sua região. Diferentemente de quem reside na região central, que acaba tendo uma relação de muito mais utilidade e, consequentemente, acaba vivenciando um convívio digamos, mais “frio”. Apesar de não morar mais em Osasco por força dos meus estudos e do trabalho, frequento a cidade ativamente e almejo, um dia, voltar. Após concluir o doutorado, previsto para 2025, pretendo continuar na carreira acadêmica e atuar como professor universitário. Desejo lecionar na Unifesp de Osasco”.
Oz, uma cidade autônoma
“Grande ponto positivo de Osasco é que se tornou uma cidade autônoma. Isso parece estúpido de dizer, mas não é. Hoje, o cenário é bem diferente daquele de décadas anteriores, em que a cidade não acompanhava o processo de desenvolvimento demográfico. Ou seja, milhares de moradores iam para São Paulo em busca de consumo e lazer. A população trabalhava no município, recebia o seu salário, porém, gastava em outra região. Quando uma cidade se desenvolve tão perto de São Paulo e que oferece praticamente tudo à população, as dependências ficam muito latentes. Cidades da Região do Grande ABC ou Guarulhos, por exemplo, têm uma dependência muito grande ainda de São Paulo, principalmente no que diz respeito a serviços. Diferentemente de Osasco, que em minha opinião, conseguiu se “descolar” da cidade de São Paulo, criando sua própria autonomia. Atualmente, Osasco acaba sendo um local que atende a muitas demandas de outros municípios vizinhos, a exemplo de Carapicuíba, Barueri, Jandira, entre outros, pois oferece ampla rede de serviços, comércio, centros de compras, possibilidades de lazer, especialidades médicas e por aí vai. O bairro do Km 18, por exemplo, se tornou uma verdadeira região boêmia da cidade, com muitos bares e restaurantes, com opções para todos os tipos de públicos. Os serviços de saúde, tanto públicos quanto privados, também têm se desenvolvido muito nos últimos anos em Osasco. Costumo passear pelos parques municipais da cidade e todos eles estão muito diferentes, mais organizados e bonitos. Tudo isso corrobora para que o município tenha conquistado lugar de destaque na economia. Tanto assim, que é a única cidade que não é capital a figurar entre as maiores economias do País. Em suma, com essa autonomia, Osasco tem conquistado mais recursos, empresas e, consequentemente, pode investir mais em todas as áreas. Por esta razão, acaba sendo tão procurada por grandes empresas. Osasco está no caminho para se tornar uma cidade de Primeiro Mundo”.






