Um dos mitos que caíram por terra, nos últimos anos, é o que a área de exatas, e principalmente a tecnologia, sejam ambientes exclusivamente ocupados por homens. Num mercado tão acirrado como este, é notório que cada vez mais mulheres vêm o campo tecnológico como uma opção para constituir uma carreira no mercado de trabalho.
Ainda que considerada uma minoria, as mulheres vêm correndo cada vez mais atrás de seu espaço na computação. “As meninas tem muito interesse em programar”, afirma a professora universitária Pollyana Notagiargiacomo, 48, do Centro Universitário Mackenzie, “Isso percebo na minha sala de aula”, completa.
É o caso da analista de testes Queizy de Oliveira, 23. Na área desde o ensino médio, onde junto a esse cursou técnico em informática, ela foi incentivada pela família a fazer uma graduação nesse mesmo tema. “A área de TI quem me escolheu”, ela conta “Comecei a faculdade por já ter conhecimento da área e uma coisa puxou a outra”, diz ela.
Entretanto, embora haja uma maior vontade de estudar computação e aprender mais sobre tecnologia entre as mulheres, ainda há poucas fazendo isso. No Brasil, apenas 15% das matrículas nos cursos da área são feitas por mulheres, conforme Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) em 2019. Somente 17% dos programadores são do sexo feminino, de acordo com um relatório feito pela Unesco. Já a Associação Telecentro de Informação e Negócio (ATN), divulgou em 2019, que cerca de 36.300 mulheres formadas na área buscam colocação no mercado.
Preconceito e Machismo
Mesmo com o crescimento do setor acima da média global em 2019, apresentada na pesquisa Mercado Brasileiro de Software – Panorama e Tendência, realizada Associação Brasileira de Empresas de Software (ABES), de 9,8%, muitas mulheres vem perdendo o interesse pela carreira no campo da informática.
Os agentes variam: vão desde o preconceito dos homens contra a presença de mulheres em áreas técnicas, até a dificuldade em harmonizar a vida pessoal com o trabalho, que impõe horários pouco convencionais.
De acordo com uma pesquisa realizada pela Yoctoo em 2019 – que atua no recrutamento e seleção de profissionais para o mercado da Tecnologia da Informação – apontou que 82,8% das mulheres que trabalham na área, relatam já terem sido vítimas de preconceito.
O mesmo estudo também expôs que em escolas e cursos de tecnologia, a porcentagem é de 61,8%. O estudo foi conduzido com o objetivo entender os desafios enfrentados pelas mulheres na área, a partir de uma consulta qualitativa de seus anseios e dificuldades.”É uma discussão muito recorrente”, comenta a professora Pollyana. “Já tive alunas que relataram que sofreram discriminação”, comenta.
“Com a crescente conscientização de equidade de gênero, nós mulheres também passamos a reconhecer no nosso dia a dia, o que é machismo”, comenta Queizy. A analista de teste também ressalta que “isso abre nossos olhos para as pequenas ou grandes atitudes dos homens, principalmente dos mais velhos”. “Então por isso eu já sofri assédio moral por ser mulher e usar uma saia, ou por estar almoçando com algum colega e ouvir comentários desrespeitosos por isso”, ela também relata.
Para a questão dos horários adversos, a professora Pollyanna sugere que “Deve haver iniciativas permitam para aquelas que querem ter uma vida pessoal e também serem mãe, ter a oportunidade de trabalhar com o home office, mesmo que não fosse integral. É uma chance muito grande, principalmente aquelas que buscando o mercado.
Ícones Históricos
Historicamente, a ciências, tecnologia e o trabalho sempre foram ligados à figura masculina. Entretanto, na computação esse ambiente sempre teve uma forte presença feminina: o primeiro algoritmo da história foi desenvolvido por uma mulher, Ada Lovelace– filha do poeta inglês Lord Byron. “A Ada não é importante por ser mulher”, explica a professora Pollyana “ela é importante na área de tecnologia no geral, principalmente na computação”.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a atriz austríaca Hedy Lamarr desenvolveu um sistema de transmissão pioneiro, que se tornou base para tecnologias como o Bluetooth, o GPS e o Wi-Fi.
Em meio a corrida espacial, durante a Guerra Fria, as programadoras, Katherine Johnson, Dorothy Vaughn e Mary Jackson, mulheres afro-americanas que trabalharam na NASA, foram as mentes por trás do lançamento em órbita do astronauta John Glenn, 1961 – tal história foi retratada no cinema, no filme Estrelas Além do Tempo. Em 1969, a programadora Margaret Hamilton liderou a equipe do MIT que escreveu o código que possibilitou o sucesso da missão Apollo 11, que chegou à Lua.
No Brasil, a primeira turma de Ciências da Computação da USP, em 1974, era majoritariamente composta por 20 alunos, sendo 14 mulheres e 6 homens, 70% da turma era composta de mulheres. Em 2016, a turma do mesmo contava com 41 alunos, sendo apenas 6 meninas, ou seja, 15%.
Mesmo com o ‘sumiço’ da figura feminina no setor, na década de 1980, com o aumento do acesso à internet nos anos 2010, elas tem voltado para a área de tecnologia. “Tenho vistos mais mulheres estudando e trabalhando com TI”, conta Queizy. “Acredito que o mercado de TI está abraçando a mulher cada vez mais”completa.
Realocação e permanência no mercado de trabalho
Em meio à crise econômica e altos níveis de desemprego que o país enfrenta – onde 11% da população, afetando mais de 11 milhões de pessoas. Em meio a isso, mulheres observam na área de tecnologia como uma opção para uma realocação. É o caso da engenheira civil Patricia Nunes, 23.
Formada em 2019, ela viu no setor uma forma de completar sua carreira. “Enxerguei uma boa oportunidade de agregar valor ao meu currículo e melhorar minha colocação no mercado através de uma segunda graduação na área de Tecnologia”, conta a engenheira.
“A área de tecnologia está em ascensão já faz alguns anos Cada vez mais, áreas mais ‘tradicionais’ como a minha de formação”, explica Patrícia. “Exigem de profissionais habilidades voltadas à Tecnologia da Informação – como conhecimentos em Business Intelligence, linguagens de programação específicas e outras”, explica ela.
A engenheira também ressalta que “é de senso comum que equipes mais diversas são mais criativas e produzem melhores resultados, então o crescimento do número de mulheres em ambientes anteriormente dominados por homens é uma vantagem profissional para todos os lados da história”.
Para aumentar o número de mulheres criem interesse na área de tecnologia, a professora Pollyana sugere que haja mais eventos e projetos voltados para as mulheres. “Que mostrem que há oportunidade no mercado de trabalho e que isso independe dessa questão que depende mais da competência”, afirma ela.
“O mercado de TI é excelente”, afirma Queizy , “é uma área de constante de conhecimento em, ainda mais por se tratar de um setor em expansão.
“Ainda há um caminho longo a ser percorrido”, explica Patrícia, “estamos pavimentando o caminho na intenção de termos muitos avanços”, finaliza.






