Um modelo matemático desenvolvido por pesquisadores do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe/UFRJ) e da Universidade de Bordeaux (França) aponta que os casos confirmados de covid-19 no país são cerca de 35% dos indivíduos sintomáticos. O número representa melhora em relação a abril, quando a testagem alcançava apenas 15%.
O Brasil passou de 180 mil casos, segundo balanço do Ministério da Saúde, que reúne os dados das secretarias estaduais de saúde. Com estados em diferentes estágios da pandemia, a situação é uma média da que se desenrola regionalmente, explica o professor titular da Coppe/UFRJ e consultor técnico da Marinha do Brasil, Renato Cotta.
O professor assina o estudo com a pesquisadora brasileira Carolina Naveira-Cotta, também da Coppe/UFRJ, e com o epidemiologista francês Pierre Magal, especialista na simulação de pandemias. Cotta diz que a subida mais acentuada da curva no mês de maio é resultado da combinação da fase mais aguda da epidemia com o aumento da realização de testes, que, ao elevarem o número de casos, ajudam a retirar indivíduos infectados da cadeia de contágio.
O cenário avaliado por Cotta como o mais próximo da realidade considera um isolamento mais leve e uma testagem mais ampla. Se mantidas as condições ao longo da evolução, a projeção aponta que o número de casos pode chegar a um valor de cerca de 275 mil casos no dia 150 da epidemia, na segunda quinzena de julho, considerando 24 de fevereiro como o dia um.
Tais projeções estão sujeitas aos impactos de novas medidas adotadas pelas três esferas de governo e ao comportamento da população. Cotta exemplifica que o relaxamento da quarentena em 50% após 1º de junho pode gerar um segundo pico de casos maior do que o vivido neste mês de maio, trajetória que talvez seria interrompida por novas restrições à circulação, que viriam em resposta a esse possível cenário.
Já um relaxamento da quarentena em 30% com aumento da testagem reduziria esse segundo pico a um patamar menos acentuado que o pico de maio, situação que poderia ser atendida com a estrutura já mobilizada para tratar pacientes da pandemia.
A testagem vem sendo considerada pela OMS como fundamental para a retomada das atividades econômicas. Em uma coletiva de imprensa feita na última segunda-feira, o diretor-geral da organização, Tedros Adhanom, descreveu que muitos países iniciaram o relaxamento das medidas restritivas na última semana.
A OMS diz que é preciso refletir antes de decidir se o isolamento social deve ser relaxado: a epidemia está sob controle? O sistema de saúde está pronto para lidar com uma nova alta de casos? O sistema público de vigilância em saúde está preparado para detectar e monitorar os casos e seus contatos e identificar um ressurgimento dos casos?
Renato relembra o exemplo sul-coreano, em que o sistema de vigilância realizou testes em massa já desde o início da epidemia, o que permitiu que casos assintomáticos fossem identificados a partir da testagem de quem teve contato com casos sintomáticos. Com isso, a Coreia do Sul, país de mais de 50 milhões de habitantes, freou a epidemia em 10 mil casos e cerca de 150 óbitos.
“A volta tem que ser vigiada. Enquanto a gente não tiver a vacina, essa é a forma de lidar com a epidemia”, pontuou o professor.







