O estresse faz parte da vida moderna e, em geral, é lembrado como um inimigo do bem-estar. Mas, segundo o psiquiatra e psicanalista Dr. Daniel Oliva, do Hospital Israelita Albert Einstein, o problema não está no estresse em si, e sim no excesso. “A palavra vem da física e significa tensionamento. Quando esse tensionamento acontece dentro de um limite que conseguimos suportar, ele pode até ser positivo”, explica.
De acordo com o médico, o estresse pode funcionar como um impulso para o crescimento pessoal. “Assim como o músculo que se fortalece após um treino intenso, o estresse psicológico, quando equilibrado, nos ajuda a desenvolver novas habilidades e enfrentar desafios. Mas, quando passa do limite, o que poderia gerar fortalecimento acaba se transformando em adoecimento”, afirma.
Esse limite, segundo ele, costuma ser ultrapassado quando o corpo e a mente começam a dar sinais de sobrecarga. “O primeiro alerta é a disfunção. Enquanto o estresse é saudável, conseguimos manter a rotina, trabalhar, dormir e nos alimentar. Quando se torna excessivo, aparecem sintomas como cansaço constante, insônia, mudanças na alimentação e perda de concentração”, diz.
Esses sinais, se prolongados por semanas ou meses, indicam que o organismo está pedindo socorro. “O indivíduo não consegue relaxar, não se recupera com o descanso e permanece envolvido em preocupações. É quando o estresse deixa de impulsionar e passa a desgastar.”
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O peso do trabalho e a necessidade de equilíbrio
O ambiente profissional costuma ser um dos principais gatilhos para o estresse, mas Dr. Oliva lembra que ele não é o único. “Os transtornos mentais são multifatoriais, com causas genéticas, sociais e econômicas. O trabalho ocupa boa parte do nosso dia e, por isso, pode ser tanto um fator de risco quanto um fator de proteção, dependendo das condições”, explica.
Ambientes tóxicos, metas inalcançáveis e falta de reconhecimento aumentam as chances de adoecimento. Por outro lado, relações saudáveis e propósito no que se faz funcionam como proteção. “O trabalho é um espaço importante da vida e da construção de identidade, mas é preciso que ele não ultrapasse os limites pessoais”, acrescenta.
O psiquiatra ressalta ainda que a ajuda profissional não deve ser buscada apenas em casos graves. “Da mesma forma que procuramos um ortopedista por uma dor no joelho, mesmo sem uma fratura, devemos buscar um profissional de saúde mental quando o sofrimento é intenso ou desproporcional”, orienta. Tristeza sem motivo aparente, ansiedade exagerada, mudanças de sono, alimentação ou memória que persistem por semanas são sinais de alerta.
A pandemia, lembra o médico, intensificou os fatores de estresse. “O confinamento, o medo do vírus e a transição para o home office misturaram as fronteiras entre casa e trabalho. As pessoas passaram a estar permanentemente disponíveis, o que aumentou o cansaço e a pressão”, observa. Mesmo após o fim da crise sanitária, os efeitos permanecem. “Hoje vivemos uma hiperconectividade que impede o descanso e torna cada vez mais difícil desconectar. Isso tem um custo emocional alto”, afirma.
Para o especialista, cuidar da mente exige atenção ao corpo e aos hábitos. “Sono de qualidade, alimentação equilibrada, prática regular de atividades físicas e momentos de lazer são essenciais. É importante também cultivar bons relacionamentos e evitar o abuso de álcool, cafeína e outras substâncias”, recomenda.
A terapia, segundo ele, tem papel central nesse processo. “É um espaço de escuta e reflexão, onde o indivíduo pode compreender suas emoções e desenvolver ferramentas para lidar com os desafios da vida. O terapeuta é alguém imparcial, diferente de amigos e familiares, e ajuda a construir novas formas de enfrentamento”, explica.
Quanto ao uso de medicamentos, Dr. Oliva destaca que cada caso deve ser avaliado individualmente. “Nos quadros mais leves, mudanças de hábitos e psicoterapia costumam bastar. Já em casos mais severos, os psicofármacos são fundamentais para aliviar sintomas e acelerar a recuperação.”
Ao final, o psiquiatra reforça que o estresse, quando bem administrado, é parte natural da vida. “Não há crescimento sem algum desconforto. O segredo está em reconhecer os limites e buscar ajuda antes que o desgaste se torne sofrimento. Quando conseguimos esse equilíbrio, o estresse deixa de ser um inimigo e passa a ser um aliado do desenvolvimento humano.”
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