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Feminicídios batem recorde e acendem alerta para violência

Com 270 vítimas de feminicídio no estado, número é o maior desde 2018; delegada alerta para perfil das mulheres em maior risco; saiba mais
Feminicídio é o assassinato de mulheres motivado por questões de gênero, envolvendo violência doméstica/familiar (Divulgação/Freepik)

O mês de março coloca em evidência uma causa urgente: o combate à violência contra a mulher. Marcado pelo Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, o período serve como um momento de reflexão, mas também de alerta, diante de números que preocupam os crimes de feminicídio.

Em 2025, o estado de São Paulo registrou o maior número de feminicídios desde o início da série histórica, em 2018. Foram 270 vítimas, um aumento de 6,7% em relação a 2024, quando o total foi de 253. Os dados são da Secretaria da Segurança Pública do estado (SSP-SP).

Na região de Osasco, a realidade não é diferente. A delegada Juliana Gomes, titular da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Osasco, confirmou ao Jornal Giro S/A que, em 2025, foram registrados casos de feminicídio, sendo consumados ou tentados, na comarca.

Feminicídio é o assassinato de mulheres motivado por questões de gênero, envolvendo violência doméstica/familiar ou menosprezo à condição de mulher. No Brasil, é crime hediondo desde 2015 (Lei nº 13.104), com penas de 12 a 30 anos. Dados de 2025/2026 indicam crescimento no país, com alta incidência em municípios pequenos

Um dado da SSP-SP acende um sinal de alerta: sete em cada dez vítimas de feminicídio no ano passado não tinham nenhum boletim de ocorrência anterior contra o agressor. O registro formal é o primeiro passo para que a rede de proteção à mulher entre em ação — e pode ser determinante para salvar vidas e evitar outros casos de feminicídio

Os casos mais recentes de feminicídio que ainda não estão contabilizados nas estatísticas oficiais, na última sexta-feira (13), um feminicídio seguido de suicídio foi registrado em Jandira. Um homem de 39 anos é suspeito de ter envenenado a companheira e, em seguida, tirado a própria vida. O crime ocorreu na residência do casal, no bairro Jardim Gabriela I.

A delegada Juliana Gomes traça o perfil das vítimas mais vulneráveis. “As mulheres mais vulneráveis são as que possuem entre 20 e 30 anos. Trata-se de um delito que acomete todas as classes sociais e a maior incidência ocorre nos casos de vínculo afetivo/amoroso — seja casamento ou união estável —, sendo mais relatado na fase de separação do casal”, afirma.

Combate ao Feminicídio

Hoje, o estado de SP conta com 142 unidades territoriais de DDM (Divulgação/Freepik)

A delegada Juliana Gomes destacou que no combate à violência contra a mulher, as DDMs têm atuado em conjunto com a rede municipal (CRMVV e GCM) para o registro e acompanhamento dos casos, em especial da solicitação de medidas protetivas.

“Constantemente, especialmente no mês de março, há palestras e programas de conscientização e enfrentamento à violência contra a mulher, seja em palestras em escolas, na câmara ou organizações que encampam a causa”, explica a jurista.

Hoje, o estado conta com 142 unidades territoriais de DDM, sendo 18 com funcionamento 24 horas, para garantir celeridade no atendimento. Com o objetivo de oferecer um ambiente seguro para mulheres vítimas de violência que buscam apoio para denunciar seus agressores, o Governo de São Paulo ampliou em 174% as salas DDMs em plantões policiais, atualmente com 173 unidades em todo o estado.

Nas salas, a vítima é atendida em videoconferência por equipe especializada da Delegacia da Defesa da Mulher, onde ela pode registrar a ocorrência, receber orientações e solicitar medidas protetivas emergenciais, como atendimento médico e abrigo. O funcionamento das salas DDM Online é de segunda a sexta, das 20h às 8h. Aos fins de semana e feriados, o serviço é 24 horas.

O combate à violência doméstica vai além dos números. Por trás de cada registro, há desafios que dificultam a proteção das vítimas, e um dos maiores deles é invisível: a subnotificação. É o que aponta a delegada Juliana Gomes. Em virtude disso, pode gerar casos de feminicídio.

“Muitas mulheres ainda não denunciam ou, quando finalmente resolvem solicitar ajuda, acabam retomando o relacionamento com o agressor e desistem da medida protetiva”, explica a delegada. Esse comportamento, segundo ela, muitas vezes encoraja o agressor a cometer crimes ainda mais graves.

Outro obstáculo apontado por Juliana é a falta de equipe multidisciplinar nas delegacias — em especial a ausência de psicólogas capazes de ajudar a mulher a reconhecer a situação de vulnerabilidade em que vive.

Para quem convive com uma mulher em situação de risco, os sinais podem parecer pequenos no início. A delegada alerta que o agressor costuma começar com controle e manipulação, evoluindo para isolamento social e familiar, ciúme extremo, ameaças, perseguição e, finalmente, violência física.

“Há um escalonamento dos atos de violência e é importante a adoção de providências quanto antes, a fim de que a vítima perceba e saia do ciclo da violência”, afirma Juliana.

O que fazer ao registrar uma ocorrência

Quando uma mulher chega à DDM, o primeiro passo é o registro do Boletim de Ocorrência, momento em que ela relata as violências sofridas, apresenta provas e indica testemunhas. Nessa etapa, também pode solicitar medidas protetivas de urgência ao Judiciário.

Se necessário, é instaurado um inquérito policial para ouvir os envolvidos e reunir mais elementos para a investigação. A vítima também é orientada a realizar exame de corpo de delito quando há agressão física, e a buscar apoio no CRMVV — Centro de Referência da Mulher Vítima de Violência.

Caso a medida protetiva seja concedida, a delegada orienta as mulheres a procurar o GEVID no Fórum mais próximo e solicitar inclusão no Projeto Guardião, que fiscaliza o cumprimento das medidas protetivas em parceria com a GCM (telefone 153). Questões cíveis, como guarda e pensão, podem ser encaminhadas à Defensoria Pública ou a um advogado.

Medidas protetivas: avanços e limites

As medidas protetivas são consideradas um instrumento importante, e Osasco tem avançado no monitoramento dos casos por meio do Projeto Guardiã Maria da Penha, desenvolvido em conjunto com a GCM. No entanto, a delegada reconhece os limites do sistema.

“A subnotificação dos casos e a solicitação da vítima em revogar as medidas protetivas interrompem o acompanhamento do agressor e permitem a continuidade da vítima no ciclo da violência doméstica”, afirma Juliana.

O cenário em Osasco

Segundo a delegada, a violência doméstica na região está ligada principalmente à combinação de fatores culturais, dependência econômica e os desafios sociais de uma grande área metropolitana. O perfil dos casos não difere significativamente do padrão nacional, a violência é praticada, em sua maioria, por parceiros ou ex-parceiros.

O que diferencia Osasco, segundo Juliana, são as políticas de monitoramento e prevenção: campanhas comunitárias, o programa Guardiã Maria da Penha e o CRMVV formam uma rede que, apesar dos desafios, busca ampliar a proteção às mulheres da região.

Canais de apoio em Osasco e região:

DDM de Osasco — registro de ocorrências e medidas protetivas

CRMVV — Centro de Referência da Mulher Vítima de Violência

GCM / Projeto Guardião — Tel. 153

GEVID — acompanhamento de medidas protetivas no Fórum

Defensoria Pública — apoio jurídico em demandas cíveis

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